• Matheus Mans

Muito melhor que o filme, 'Submersão' é livro inteligente e complexo


Na última semana, o filme Submersão chegou aos cinemas com Alicia Vikander e James McAvoy. E como Pedro Balciunas bem ressaltou aqui no Esquina, o longa-metragem de Wim Wenders é uma confusão só e acaba se transformando numa fraco e esquecível filme 'dois em um'. No entanto, não vale a pena desistir da essência da história: o livro homônimo, escrito por J.M. Ledgard, é intenso, entusiasmante e extremamente atual. Muito melhor que o filme.

A história, assim como no filme, é dupla: na costa da África, James More é mantido refém por combatentes jihadistas e que, fingindo ser um engenheiro hidráulico, acaba reportando informações sobre a Al-Qaeda. Do outro lado do mundo está a biomatemática Danielle Flinders, que se prepara para descer com um submergível até o solo oceânico para estudar novas formas de vida escondidas nas entranhas do mar da Groenlândia. E o que eles têm em comum?

James e Danielle são atraídos pelas lembranças do Natal do ano anterior, quando um encontro de ambos numa praia resultou em um intenso e tórrido romance. Assim, enquanto é mantido refém, a mente de James volta a todo o momento para essa semana de amor sem compromissos, enquanto Danielle não para de pensar no começo de tudo -- indo desde o início da vida, já que ela está em busca de fragmentos biológicos perdidos, até o começo de seu romance.

A partir daí, J.M. Ledgard constrói essa teia de acontecimentos que se inter-relacionam. Só que é aí que está o grande diferencial de uma mídia para outra: Wim Wenders, apesar de ser um grande cineastas do clássico Paris, Texas, não conseguiu imprimir essa linha entre as histórias a ponto de ficar visível na tela e criar emoção quando precisa. Pelo contrário: como Balciunas disse, "mistura assuntos sem relação e, de maneira canhestra, tenta construir uma ligação entre eles".

Já no livro, Ledgard -- que não tem outras obras publicadas -- faz isso com louvor. Ainda que no começo do livro as coisas soem um pouco artificias e cansativas, elas vão se envolvendo e, principalmente, trazendo o leitor para dentro da série de acontecimentos que envolve a narrativa.

Além disso, Submersão trata de temas universais e extremamente atuais, como a liquidez de romances e o terrorismo, de forma natural, ainda que um pouco exibicionista e, em alguns momentos, com exagero de referências. Mas que, no final das contas, flui. Isso é mérito também dos bons personagens criados por Ledgard: James é forte e convicto, trazendo um pouco de irritação e teimosia às páginas -- mas também coragem e certo patriotismo.

Mas é Danielle que cativa. Cheia de camadas, a personagem é construída com força por Ledgard e, aos poucos, vai ganhando as páginas como uma verdadeira protagonista -- ainda que o livro tenha uma divisão igual de acontecimentos entre os dois. Pena que Alicia Vikander não teve espaço para explorar a personagem. Teria sido um arrebatamento na tela dos cinemas.

Submersão é um livro forte, corajoso, atual e inteligente, que consegue unir duas situações por meio de uma narrativa literária delicada e que vai costurando os acontecimentos com precisão -- ao contrário do filme de Wim Wenders, infelizmente. Se você assistiu ao filme e teve a sensação de história perdida, então vá correndo ler ao livro de J.M. Ledgard. Sem dúvidas, será recompensado.

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