• Matheus Mans

'Nossas Noites' é delicado relato sobre a velhice


Não é fácil retratar a velhice de maneira delicada e poética. No cinema, apenas alguns filmes se saíram bem com esta premissa, como é o caso de Amor, Elsa & Fred e Up!, da Disney. Enquanto isso, na literatura, a missão é ainda mais complexa, podendo contar nos dedos as histórias que tiveram êxito. Em um rápido exercício, é possível lembrar apenas do subestimado Memórias de Minhas Putas Tristes, de García Márquez, e A Improvável Jornada de Harold Fry. No entanto, um novo livro acaba de alcançar esse panteão: Nossas Noites.

Escrito pelo já falecido escritor Kent Haruf, o livro acompanha a curiosa relação entre os idosos Addie Moore e Louis Waters. Vizinhos e viúvos, os dois vivem solitários e sem muito contato, até que Addie, em um dia qualquer, resolve atravessar o quarteirão e fazer uma proposta inusitada ao vizinho: que ele passe a dormir junto com ela. Não no sentido sexual, muito menos no sentido romântico. Ela apenas quer uma companhia para as noites solitárias. E ele, afetado pelo mesmo mal da solidão, aceita de pronto.

A partir daí, Addie e Louis passam a ter uma relação de descobrimento -- o que está sendo dito como "Reifungsroman", ou romances de amadurecimento na velhice. São diálogos diretos, sem preâmbulos. Um contando ao outro sobre a sua vida, redescobrindo o que é ter uma companhia aos 70 anos de vida. E é muito bonito ver a dor e a beleza de algumas das passagens retratadas na obra, como a experiência com a morte de entes queridos ou os vários erros que precisaram ser enfrentados.

E toda a história ganha um ar ainda mais doce, leve e delicado com a escrita de Kent Haruf, que deixa a trama simples -- no melhor dos sentidos. Com diálogos bem encadeados e sem grandes malabarismos narrativos, o escritor norte-americano consegue transformar a história em uma espécie de relato. Parece que estamos assistindo uma passagem interessante na vida de Louis, de Addie e das pessoas que os cercam. Arrisco dizer que parece uma história de Lispector, que desenvolve grandes narrativas a partir de personagens mundanas, mas que mantém coerência em tudo que acontece.

Afinal, o maior ponto positivo da obra, que possui apenas 160 páginas, é não se desvirtuar no meio do caminho. A simplicidade é mantida e as reviravoltas no final da trama são humanas, plausíveis e cabíveis para o que foi contado até ali. Ao virar a última página, o leitor se sente parte da vida de Louis e Addie, quase um invasor. Você sente que fez parte da vida dos dois, além de ter genuíno e forte desejo de saber o que acontece a seguir. É uma sensação boa, de dever cumprido, que não é sentida em qualquer livro.

Por isso, sem dúvidas, Nossas Noites, que chegou às livrarias mundo afora em 2014, é o melhor livro lançado no Brasil até este momento de 2017. É simples, belo, delicado. Tem diálogos que são uma aula de como escrever bem e que mostra o que é uma boa literatura. É um tipo de livro que te deixa feliz e tranquilo de saber que a vida não acaba quando chegamos na 3a idade. É o tipo de literatura que o mundo está precisando.

Obs.: E, com certeza, não sou só eu que acha esse livro tão incrível. A Netflix já anunciou que irá adaptar a história em uma produção original da plataforma ainda em 2017.

Título: Nossas Noites

Autor: Kent Haruf

Editora: Companhia das Letras

Ano: 2017, no Brasil.

Preço médio: R$ 29,90

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