• Pedro Balciunas

Crítica: 'O Assalto' mantém viva a verve questionadora do teatro

Atualizado: Jun 16


Cena de 'O Assalto' / Crédito: Leekyung Kim

Não se engane pelo título, que entrega quase nada do que representa a peça O Assalto, de José Vicente. Escrito em 1969, e dirigido de forma madura e surpreendente por Gustavo Trestini, o texto é uma dessas obras literárias que, salvo alguns detalhes, permanece não somente atual mas também em confluente diálogo com a sociedade brasileira dos anos recentes.

Nada de reviravoltas, pirotecnias ou gigantesca produção: o que sustenta firmemente a peça é o texto forte, contundente, incômodo e irônico do dramaturgo e a atuação firme e bem dirigida dos atores Rodrigo Caetano – numa presença de palco capaz de explodir as paredes do pequeno teatro – e de Fábio Santarelli. O primeiro, um bancário literalmente surtado, imerso nos privilégios de uma classe média emergente e aduladora do patrão.

É a caricatura perfeita de grande parte da população que não entende – mesmo passados mais de cem anos da tese de Marx – de que as relações de trabalho ocorrem somente entre empregados e donos do meio de produção. Não há meio termo, cargo ou tempo de empresa que mude isso. Já Santarelli é o faxineiro inquieto, conformado com a vida precária que leva, mas sempre pronto a ter uma moeda a mais que lhe pague uma cerveja fora do tempo.

O que une personalidades tão distintas é o conformismo consciente e a latente tentativa de fuga dos papéis pré-determinados por um contrato social que privilegia o trabalhador intelectual em detrimento da força braçal da mão de obra. Além disso, a eletricidade sexual que envolve as personagens cria expectativas numa plateia que a todo momento aguarda um clímax tão explosivo quanto a troca de ataques aveludados - intercalados com brutalidade, ojeriza e desprezo, verbais e físicos.

Até quem só trabalha vai ser capaz de pensar um pouco em crise e nos assaltos cotidianos que somos submetidos – o que já não configuraria um assalto, por assim dizer, mas um contrato assinado e com firma reconhecida.

O Assalto, de José Vicente

Direção: Gustavo Trestini

Quando: 4 a 26 de novembro, todos os sábados às 21h e domingos às 19h.

Onde: Teatro Viga Espaço Cênico. Rua Capote Valente, 1323 – próximo ao metrô Sumaré

Telefone: (11) 3801-1843.

Lotação: 73 lugares

Ingressos: 50 reais (inteira) 25 reais (meia).

Compra online pela plataforma Sympla.

Professores pagam 20 reais.

Duração: 70 minutos


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