• Matheus Mans

‘O Assassino do Zodíaco’ inova com distopia policial baseada em signos


Um desavisado que lê o título O Assassino do Zodíaco pode achar que o livro, editado pela Jangada, é um novo relato sobre o famoso Zodíaco, serial killer que apavorou os Estados Unidos no final da década de 1960 e, depois, ficou mais famoso com um filme comandado por David Fincher e estrelado Downey Jr., Mark Ruffalo e Jake Gyllenhaal. Mas não. O livro, na verdade, é um distopia policial escrita pelo sul-africano Sam Wilson e trata, de forma inventiva, de uma sociedade organizada inteiramente de acordo com os doze signos do zodíaco.

Por exemplo: na sociedade de Sam Wilson, os capricornianos praticamente dominam todo o mundo -- e não, não tenho ideia de qual é o signo de Sam. Os librianos, sempre simpáticos, acabam com os serviços gerais e de atendimento ao público, enquanto os taurinos servem como policiais, talvez pela teimosia. Mas na parte debaixo dessa pirâmide social repleta de significados astrológicos estão os arianos. Incompreendidos por grande parte da população, eles acabam exilados em favelas e sem grandes oportunidades na vida. Nascem assim e morrem assim.

A ideia que embasa essa distopia não é nova. Sociedades que determinam o futuro de uma pessoa no nascimento já foram lidas na série Divergente, da Veronica Roth, e em Jogos Vorazes, da Suzanne Collins; além de ter sido visto, recentemente, no fraco filme Bright, da Netflix. No entanto, Wilson consegue reverter essa fórmula para benefício próprio com uma ideia original e que necessita de pouca explicação. Afinal, os signos estão cada vez mais presentes nas discussões virtuais e todos já entendem. Não precisa introduzir facções nem nada do tipo.

E fica claro, ao decorrer da narrativa, que Sam Wilson estudou muito sobre o tema. Não há inocência ou termos leigos quando se trata de signos -- ainda que, não se preocupe, tudo seja deixado muito claro para os leitores. A sociedade é ricamente organizada e a maioria das designações de cada signo são bem exemplificadas, mesmo com passagens rápidas. É claro: algumas pessoas, de signos específicos, podem ficar ultrajadas com a descrição no livro. Algumas que conversei sobre a obra ficaram. Mas é preciso entender que há algo bem maior por trás.

Sam Wilson escreve uma distopia que, como quaisquer outras grandes obras do gênero, reverbera em nossa realidade. Mais do que uma divisão de signos, a sociedade criada pelo sul-africano tem uma verdadeira segregação, assim como foi visto durante anos na África do Sul e, infelizmente, ainda é visto em outros países. Em entrevista à própria Jangada, o autor comentou esse aspecto. “Eu não teria escrito esse livro se eu não vivesse na África do Sul. Mais de vinte anos depois do Apartheid, ainda há fendas culturais extremas”, disse o sul-africano.

E para levar essa trama distópica adiante, Wilson acaba investindo numa trama policial: um assassino está a solta, matando pessoas de signos específicos e de acordo com elementos da terra, ar, água ou fogo. É uma boa maneira de levar a trama distópica, ainda que tenha aspectos que a deixem um pouco frágil, como a construção do personagem capricorniano e o pouco suspense travado. Faltou um pouco mais de apuro literário. Mas normal, já que é o primeiro romance de Sam.

O Assassino do Zodíaco é, enfim, um bom livro distópico moderno. Foge da literatura de jovem adulto, que perdeu força nos últimos anos, e consegue concretizar uma sociedade interessante e que, futuramente, pode ser revisitada e render outros bons frutos nas mãos de Sam Wilson.

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