• Matheus Mans

Opinião: 2020 é ano perdido para os cinemas por conta de coronavírus


É fatal: após os adiamentos de Morbius e Caça-Fantasmas 3 pela Sony Pictures, muito pouco sobrou para os cinemas em 2020. Em abril, terra arrasada. Apenas alguns filmes independentes permanecem no calendário de lançamentos, mas logo devem ser tirados do caminho. Em maio, a Disney resiste com o esquecido Artemis Fowl e a Paris Filmes com o polêmico Marighella.


Na segunda semana de junho, alguns outros lançamentos medianos começam a surgir: tem Bob Esponja: O Incrível Resgate, Eduardo e Mônica, A Lenda de Candyman e a animação Soul. A coisa volta com grandes lançamentos, de fato, só em julho. Neste longínquo mês, os cinemas estão programados a passar Top Gun: Maverick, Free Guy, Jungle Cruise e Tenet, de Christopher Nolan.


Mas não dá pra ficar animado. Conforme avançam os casos de covid-19, maiores as chances desses mesmos lançamentos serem adiados. Acredito fortemente que Jungle Cruise e Tenet não devem chegar na data, já que estão em processo de pós-produção e devem sofrer atrasos por conta da quarentena que se abate nos Estados Unidos, Inglaterra e grande parte da Europa.


Se isso acontecer, o primeiro grande lançamento na "retomada" será Mulher-Maravilha 1984, lá em agosto. Neste mesmo mês, por enquanto, nada mais grandioso. Só pequenos independentes.


É preciso pensar, também, que levará um tempo para as pessoas se sentirem confortáveis em dividir uma sala com dezenas de desconhecidos para ver um filme. Na retomada, talvez os exibidores vendam apenas parcelas de ingressos -- seja 30% ou 40% apenas da lotação máxima de uma sala. Depois, vão ter que ser pacientes com o público não tão acostumado com cinema.


Mas se formos positivos, e pensarmos numa retomada rápida, o cenário ainda assim é complicado. Com o ano começando em julho nos cinemas, é impossível que as bilheterias se igualem ao que vimos em 2019 -- que teve o derradeiro Vingadores: Ultimato. É cenário de catástrofe. Paulo Sérgio Almeida, do portal Filme B, acredita que a queda vai ser muito brusca.


Numa matéria que fiz para o site Filmmelier, onde também escrevo, ressaltei essa fala de Paulo:


"Acredito que, tirando as grandes redes, teremos uma quebradeira geral. Afinal, 2020 é um ano perdido. Vamos conseguir, no máximo, atingir 30% do faturamento do ano passado. Poucos vão sobreviver à isso”.

O que vai acontecer agora é uma incógnita. Se com o faturamento de 2019 o cinema ainda estava em xeque, o que vai acontecer agora? O que vai sobreviver? O que vai mudar? O que vai se transformar? O fato é que exibidores terão que se "virar nos 30" para encontrar saídas. O Cinemark já pensa em delivery de pipoca. O Belas Artes faz um financiamento coletivo.


Mas é difícil acreditar que os muito pequenos irão sobreviver. Se a crise se prolongar, será fatal a morte de grande parte dos cinemas de rua, que já vinham moribundos nos últimos anos.


Enquanto isso, as distribuidoras terão que seguir o caminho do resto do globo e se digitalizarem. Será o momento dessas empresas -- sejam grandes ou pequenas -- encontrarem o caminho ideal para lançamentos direto em streaming ou video on demand. Ou, ainda, no caso das gigantes, acelerar o lançamento de seus streamings próprios. Tem uma saída melhor que essa?


O fato é que este ano perdido vai movimentar o mercado. Matar o cinema, jamais. Mas transformá-lo. Talvez quando as salas voltarem à normalidade, haja mais tranquilidade na forma de tratarmos a conexão entre digital e físico. Sala convencional e streaming. Ao contrário do que pensávamos, são meios que podem coexistir e se ajudar. Não competir mortalmente.


A bola da vez, depois disso, estará com o público e com executivos.. O público, por sua vez, precisará entender e acompanhar essas transformações quase obrigatórias. Os executivos, por sua vez, vão ter que entender essa nova onda de comportamento. Se adaptar, se reinventar. Por que o Belas não pode fechar uma parceria com Netflix, por exemplo? O que impediria isso?


Ou, ainda, o Cinemark fazer uma parceria com algum grande streaming de fora? Seria ótimo.


O cinema, com o ano de 2020 perdido, está passando por sua mais grave crise. E é aí que vemos o poder de transformação de um mercado como esse. O mundo não será mais o mesmo como em fevereiro de 2020. Lá pra agosto ou setembro, sairemos às ruas transformados. Iremos encarar as pessoas e experiências de modo diferente. Até lá, o cinema encontrará seu espaço.

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