• Matheus Mans

Opinião: Moraes Moreira deixa vazio na MPB em tempos sombrios



Você pode até não conhecer Moraes Moreira. Dizer que nunca ouviu nada dele ou até que não sabia em quais grupos cantou, quais seus sucessos. Mas é difícil não reconhecer versos clássicos como "eu ia lhe chamar, enquanto corria a barca!" ou, ainda, "Brasil, esquentai vossos pandeiros, iluminais os terreiros, que nós queremos sambar". Voz imortal, músicas imortais.


Mas o fato é que Moraes Moreira, ex-vocalista do Novos Baianos e dono de uma carreira solo exemplar, infelizmente não era imortal. Morreu enquanto dormia, de causas não reveladas, ao 72 anos. Era muito novo, apesar da trajetória intensa, marcante, histórica. Sua voz, ao longo desses 72 anos, embalou momentos da História do Brasil como outras poucas o fizeram de fato.


Afinal, Moreira vai para além dos versos que acima destacamos, dos clássicos Preta, Pretinha e Brasil Pandeiro, do seminal disco Acabou Chorare. O cantor e compositor baiano, parceiro de longa data de Pepeu Gomes e Baby do Brasil, viveu o País como poucos. Trouxe alegria, se tornou a cara da Bahia, ultrapassou barreiras do Carnaval. Se tornou a cara da MPB oitentista.


Com os Novos Baianos, se consagrou. Com a carreira solo, se consolidou. Afinal, trouxe álbuns como Sintonia e Moraes Moreira, de 1975. Sozinho, o baiano mostrou que era a cara do Brasil. E, acima de tudo, que entendia o Brasil. Descobriu o país em versos, estrofes, harmonias. Traduziu nosso povo. E, assim, revelou o espírito de nossa gente num Brasil que já ficou para trás.


Ultimamente, mesmo em isolamento social, Moreira estava produzindo. Fez um xote inédito sobre o coronavírus e estava animado com o seu projeto atual: um show só com músicas que ele gostaria de ter composto, chamado Elogio à Inveja, com interpretações de clássicos como Quem Há de Dizer, de Lupicínio Rodrigues. Entendia a música brasileira como poucos.


Agora, num momento sombrio do mundo e que o Brasil precisava cada vez mais de seus melhores intérpretes, Moraes Moreira se vai. A dor de seus fãs, é claro, pulsa. Afinal, era um músico ímpar, como nunca mais vamos encontrar no cenário musical. No entanto, fica aquela máxima: vai o homem, fica a obra. E Moreira deixou músicas para o Brasil enfrentar a escuridão.



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