• Matheus Mans

Opinião: o Oscar para 'filmes populares' é a solução da premiação?


Na tarde de ontem, 8, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas -- responsável pelo Oscar -- anunciou três novidades para a premiação a partir de 2020: horário mais acessível para a transmissão global de três horas da cerimônia; a antecipação do evento, indo para o dia 9 de fevereiro; e a criação de uma nova categoria, premiando os filmes populares.

Quanto aos dois primeiros pontos, há pouco conflito. Ainda que a antecipação do evento para o início do mês cause certa confusão na distribuição dos longas, principalmente em países como o Brasil, a alteração da data é interessante para causar um maior burburinho logo após o Ano Novo. São dois meses de especulação. Quanto à mudança de horário, pouco se sabe. Mas é preciso, de fato, haver uma alteração para expandir a audiência.

O grande ponto a ser debatido é a criação da tal categoria que vai premiar o Melhor Filme Popular. Não é segredo para ninguém que a Academia está tentando tornar seus indicados mais pops para se aproximar do público e, claro, aumentar a audiência. Não é à toa que aumentou o número de indicados para 10, há dez anos, quando viu que filmes de grande bilheteria não estavam entrando na disputa mesmo quando excepcionais, como é o caso de Batman: O Cavaleiro das Trevas. Mas essa medida não mudou o rumo das coisas e a audiência continuou caindo, ainda que alguns grandes filmes tenham ganho certo espaço.

Hoje, então, a organização quer colocar os filmes populares e de grande bilheteria na marra. Ainda não divulgaram como seria a nova categoria, mas coisa boa não é. Há um certo elitismo na criação do prêmio, indicando que, contra os filmes populares, há os longas inteligentes, profundos, independentes. "Cinema de verdade". Mas é isso mesmo?

A dissolução da votação para Melhor Filme parece, em um primeiro momento, um tiro no pé. O que surge como uma solução para a Academia é uma barreira ainda maior a ser transposta. A tal divisão que sublinhei acima, sem dúvidas, ficará ainda mais acentuada. E quem vai ser indicado nisso? Vingadores? Star Wars? Ou os votantes vão considerar que filmes como Dunkirk e Corra!, que mereciam a vaga que receberam na categoria principal, é que vão acabar relegados para a tal categoria de Filme Popular?

É ruim para todos os lados. Independentes podem ficar com medo de arrecadar muito e cair no 'Melhor Filme Popular', enquanto os blockbusters vão ficar separados de todo o resto.

É uma decisão estranha e, aparentemente, desesperada da Academia que não deve dar em lugar algum -- ou, no pior dos casos, causar uma "quebra" do Oscar. O que é preciso -- e está claro desde que Batman foi esnobado -- é que precisa ser feita uma reciclagem dos que votam, flexibilizando e dinamizando os indicados. É o excesso de conservadorismo dentro da Academia que tem causado falta de diversidade racial, de gênero e de cinema.

Se as mudanças vão surtir algum efeito, só 2020 dirá. Mas o fato é que a Academia deveria estar mais preocupada em tratar a ferida que a afeta internamente do que colocar medidas para impedir uma sangria que tem prejudicado a tradicional premiação do cinema.

P.S.: Tudo isso, ainda, sem contar o absurdo deles estarem se matando para abrir a categoria de Melhor Filme Popular e ainda ignorarem a reivindicação antiga do prêmio de melhor dublê e melhor ator de CGI. É remar contra a maré. E é assunto para outro texto.