• Matheus Mans

Opinião: Oscar 2019 faz história, mas com candidatos monótonos


Pode-se dizer que a edição de 2019 do Oscar começou fazendo história. Roma quebrou um forte estigma (ou seria preconceito?) e se tornou o primeiro filme em língua espanhola a ser indicado na categoria principal. E não só isso: a produção de Alfonso Cuarón foi indicada em outras nove categorias, como Melhor Fotografia, Atriz, Atriz Coadjuvante e Roteiro Original. É um feito e tanto que merece forte comemoração, ainda mais quando o longa-metragem provavelmente fizer a limpa em, pelo menos, metade deles. Vai ser um momento e tanto pro Oscar, que se torna cada vez mais mexicano.

Ah, e é claro. Roma é o primeiro filme feito por e para uma plataforma de streaming que ganha tamanho destaque numa premiação. Pontos para a Netflix, que deve estar saltitante com esse avanço. O ótimo A Balada de Buster Scruggs, dos irmãos Coen, também produzido e distribuído pela Netflix, conseguiu emplacar indicações, em Melhor Roteiro Adaptado, Figurino e Canção Original. Esta mudança nos paradigmas indica que a indústria cinematográfica está mudando e, mesmo aos poucos, conseguindo acompanhar o público, cada vez mais fluído e digital. Interessante ver o que virá por aí.

Outro fator que ajuda o Oscar 2019 a fazer história é a indicação de Pantera Negra em Melhor Filme. É o primeiro filme de super-herói a conquistar um espaço nessa categoria. Além disso, ainda conseguiu nomeação em Trilha Sonora Original, Figurino, Edição de Som, Mixagem de Som, Direção de Arte e Canção Original. Não deve levar o prêmio em nenhuma das categorias, mas não importa. Mostra que mesmo sem o absurdo do prêmio para Filmes Populares, como anunciado pela Academia de Ciências Cinematográficas, está ocorrendo uma maior conscientização por parte dos votantes.

Além disso, vale ressaltar a boa atenção que o Oscar dispensou ao polonês Guerra Fria -- aqui no Esquina, rasgamos elogios. Não só emplacou indicação em Melhor Filme Estrangeiro, como era de se esperar, como também abocanhou uma vaga em Fotografia e em Melhor Diretor para Pawel Pawlikowski. Pena que não chegou na categoria principal, que ainda tinha mais duas vagas abertas. Merecia a indicação. Mas só com esse reconhecimento, em três categorias distintas, já dá pra comemorar e celebrar.

No entanto, nem tudo são flores no Oscar 2019. Há essas boas surpresas, mas muita coisa morna rondando a maioria das categorias. Em Melhor Atriz, por exemplo, ainda é difícil de acreditar no hype em torno de Lady Gaga, que faz um trabalho razoável. Emily Blunt merecia muito mais por Um Lugar Silencioso. Em Ator Coadjuvante, é difícil engolir a indicação de Sam Elliot e Sam Rockwell -- principalmente deste último, que só aparece em meia dúzia de cenas. O jovem Timothée Chalamet merecia muito mais por Querido Menino. Até mesmo o ótimo Steve Carell, por Vice. Difícil entender o Oscar.

Vale ressaltar, também, que alguns filmes entraram nas indicações apenas por lobby e marketing. Vice é o principal caso. Muito barulho para pouca coisa. Se a Rua Beale Falasse mereceu estritamente o ideal e felizmente ficou de fora do prêmio principal, assim como o mediano As Viúvas. O lobby, infelizmente, ainda vence e indica.

Também foi estranho não ver Culpa dentre os indicados de Melhor Filme Estrangeiro, mas dá pra entender pela extrema qualidade da categoria. Agora, a pior esnobada não foi de Bradley Cooper em Melhor Diretor, nem da Emily Blunt em Melhor Atriz. É difícil entender como o curta Lost & Found ficou de fora na categoria de Melhor Curta de Animação, que contemplou os fracos Animal Behavior e One More Step. Sério que esses são melhores? Difícil engolir. Mas tudo bem, esse é um Oscar, aparentemente, para todos os gostos. Fãs dos quadrinhos, de filmes estrangeiros e americanos. De tudo um pouco. Mas não dos melhores.