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  • Bárbara Zago

Quais as diferenças entre livro e filme de 'Estou Pensando em Acabar com Tudo'?

Atualizado: 5 de Out de 2020


Nesta sexta-feira, 4, estreia um dos filmes mais aguardados do ano na Netflix: o thriller psicológico Estou Pensando em Acabar com Tudo, dirigido por Charlie Kaufman (do poderoso Anomalisa) e baseado no romance homônimo de Iain Reid. Assim, rapidamente, já fica a dúvida sobre a adaptação. Será que foi fiel ao livro? O que mudou? Como a trama foi alterada?


O fato, para nós que já lemos o livro e assistimo ao filme, fica claro: Kaufman, como o realizador original que é, deu o próprio olhar sobre a trama. Ainda que na essência seja a mesma história da de Reid, o filme Estou Pensando em Acabar com Tudo traz camadas, significados e emoções que não cabem nas páginas. Enquanto as páginas contém elementos que não servem à tela.


A seguir, detalhamos diferenças entre livro e filme de Estou Pensando em Acabar com Tudo. E vale dizer: o texto está cheio de spoilers. Não leia antes de entrar em contato com a história.


Diferenças básicas da trama


A base geral da trama é a mesma: um casal de namorados fazendo uma viagem de bate-volta para conhecer os pais do rapaz -- Jake, no caso. No entanto, conforme avança a trama de Reid, coisas estranhas vão surgindo. Na casa, pequenos detalhes colocam um ponto de interrogação na cabeça do leitor sobre a sanidade e a realidade de tudo que está acontecendo na história.


Reid, assim, faz um trabalho minucioso. Intercalando uma conversa com colegas sobre um acontecimento triste e brutal com a viagem desse casal, o suspense vai crescendo aos poucos sem nunca assumir totalmente o protagonismo em cima de um tom de thriller psicológico e, por vezes, doméstico. É o retrato de um casal fora da normalidade num tom fora do convencional.

No filme de Kaufman, a grande diferença acaba ficando nessa intersecção entre histórias. Afinal, Kaufman mantém a viagem do casal, a estranheza dos pais e, ainda por cima, esses pequenos detalhes saborosos -- como o retrato que fica transitando entre o casal, o cachorro, etc -- continuam presentes na obra audiovisual, ainda que em menor intensidade e mais discretos.


Aspectos físicos que se assemelham entre os personagens, como a intolerância à lactose ou o problema na orelha, acabaram ficando de fora para trazer um sabor mais à história no geral.


Enquanto isso, não há a conversa sobre o acontecimento triste e violento que toma conta de um grupo de jovens. Isso, no filme, acaba sendo substituído pela história do próprio Jake "real".


Personagens


Com exceção desses estudantes que intercalam as histórias, os personagem permanecem praticamente os mesmos. Ainda que haja alguns degraus mais profundos na contextualização de personalidades e do psicológico de Jake, à medida que o livro se revela mais perto do fim, as bases são as mesmas. O contexto é igual. E, no final das contas, não há grandes alterações.


O que alguns leitores mais atentos podem perceber é a pouca maleabilidade da personagem da namorada. No filme, ela é mais volátil. Em um momento, é uma pessoa. Em outro, acaba se transformando em outra. É mais difícil compreender um sentido, uma coesão. Enquanto isso, o livro de Reid a trata desde o começo como um fragmento da memória e pensamentos de Jake.


Isso sem falar, claro, dos tais personagens que falam sobre a morte já citada algumas vezes acima. Como não existe essa passagem no filme, eles também acabaram sendo esquecidos.


Conclusão de 'Estou Pensando em Acabar com Tudo'


A grande diferença de Estou Pensando em Acabar com Tudo está na conclusão da história. No filme de Kaufman, o zelador da escola -- que é Jake, sem nunca se revelar como tal -- tem uma espécie de surto. Fica pelado dentro do seu carro. Volta para a escola nu, seguindo um porco imaginário que solta larvas pela barriga e fala para Jake sobre seu papel na sociedade.

Assim, Kaufman acaba optando por um caminho mais abstrato, mais complicado. Há grandes chances de muitos espectadores não entenderem de fato o que está acontecendo na tela -- por isso, até, recomendamos nossa interpretação sobre a história como um todo. É um filme de final mais aberto, mais amplo, ainda que continue a apostar na história de surto de Jake já velho.


Já o livro é bem mais direto ao ponto. Aqui, Reid deixa absolutamente claro que a tal namorada é apenas um fragmento da memória do rapaz. É uma moça, na verdade, que ele viu num bar há algum tempo, mas não teve coragem de conversar com ela. Tudo o que vimos, então, é apenas a imaginação do homem. Tudo é um sintoma de uma espécie de surto psicológico do homem.


Ele, além disso, tem sua trajetória mais esclarecida do que no filme. Reid explica que Reid é um homem solitário, com os pais já mortos, e que largou uma faculdade de física há mais de 30 anos. Acabou tendo seu futuro comportado na mesma escola que estudou, como zelador no turno da noite. As dores de uma vida machucada e solitária, porém, acabaram ficando na pele.


Por fim, há a conclusão da tal conversa dos tais rapazes. O acontecimento brutal é revelado como um suicídio violento de Jake, na própria escola, quando enfia um cabide na cabeça. É o resultado de um surto, no qual sua figura como zelador entra em conflito com as figuras imaginárias de seu passado irreal. É uma conclusão dolorosa que complementa bem a trama.


Por isso, para encerrar, recomendamos a leitura do livro -- ou para que assistam ao filme, se você chegou aqui apenas depois de ler o livro de Reid. O filme de Kaufman, como ressaltado, é a interpretação do livro. Assim, leia a história. Saboreie o que Reid trouxe ao mundo. Traga seu olhar, tenha suas sensações e emoções. Vale a pena -- ainda mais com desconto na Amazon.

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