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  • Matheus Mans

'Quase Memória' é romance eterno de um autor necessário


Sou um grande fã de Carlos Heitor Cony. Hoje, se fosse fazer uma liste de livros lidos em toda minha vida, Cony seria um dos nomes mais recorrentes. Acho seus romances, contos e crônicas deliciosos de serem lidos e de uma simplicidade fascinante. São sempre histórias envolventes e de fácil identificação.

A primeira obra de Cony com a qual tive contato foi Quase Memória. Soube sobre o livro por meio de um programa de TV e corri para comprar um exemplar. Li e fiquei fascinado. A partir dele, conheci todo o universo do escritor carioca. E o que posso dizer é que esse é um dos livros mais fantásticos que já li e, com certeza, figura dentre meus preferidos.

A história é sobre o próprio autor, Carlos Heitor Cony, que recebe um embrulho sem remetente. Primeiramente, acha que é apenas mais um dos vários livros que recebe. Porém, analisando, percebe que a letra do pacote é de seu pai, morto há dez anos. Isso acaba desencadeando o surgimento de emocionantes lembranças de seu pai e de sua infância.

“Eu não devia dar tanta e tamanha importância a esse embrulho. Devia abri-lo e – pronto, era um mistério a menos, se é que é mistério mesmo. Assim como há dores-de-corno retroativas, há indecisões antigas que envergonham. Afinal, o embrulho está aqui, posso dispor dele, abri-lo, jogá-lo fora, rasgá-lo, ou nada fazer com ele, mantendo-o em sua condição de embrulho, e sua espécie de mistério”.

O livro possui um enredo fascinante. A história prende desde o início devido ao mistério que envolve o embrulho recebido por Cony e como acabou chegando a sua mão após longos dez anos da morte de seu pai, Ernesto Cony Filho. O pai, inclusive, é um dos personagens mais fascinantes que já conheci.

Ernesto Cony Filho possuía sonhos, fantasias, desejos e manias que deixam qualquer leitor apaixonado pelo pai do escritor carioca. Além disso, o amor que nutria pela família é emocionante. Além dele, o próprio Cony também dá fôlego para a narrativa, ao tecer o elo entre o passado e o presente -- em algo que lembra, e muito, o filme Peixe Grande e Suas Maravilhosas Histórias.

“Era um de seus lemas. Todas as noites, antes de dormir, se havia alguém por perto, ou se estivesse sozinho, sempre dizia em voz baixa, metade como compromisso, metade como prece: ‘Amanhã farei grandes coisas!’.”

A maneira com a qual Cony conduz a história é primorosa. Nós, leitores, nos tornamos íntimos do autor de uma maneira convidativa. Praticamente, nos sentimos como um visitante na casa e na vida da família. Ou até mesmo nos sentimos como pertencentes da família.

Além da história em si, o livro causa uma profunda reflexão acerca de nossa família e nossos pais. Eu, particularmente, emocionei-me em diversos momentos da leitura, ao me transpor da história para a vida real, em situações que cabem nos conflitos e acontecimentos da atualidade.

Enfim, o livro é uma verdadeira poesia sobre a vida. E o final é interessantíssimo e causador de profunda reflexão. Além disso, vale a pena comentar que Quase Memória é um livro que marcou a carreira de Cony, ao encerrar um período de 20 anos sem ter uma obra publicada. Por isso, o livro acaba confirmando a necessidade de Cony ser eterno. Mesmo já não estando mais entre nós.