• Matheus Mans

Resenha: 'A Viúva Silenciosa' é bom suspense, ainda que pouco original


Parcerias entre escritores consagrados com autores iniciantes é algo comum no meio literário. Seja para dar originalidade para histórias, dar uma chance aos novos escritores ou coisas do tipo. James Patterson é um dos que mais tem feito isso por aí. Stephen King também tem apostado nas parcerias, principalmente com seus filhos. Mas a mais curiosa é entre Sidney Sheldon e Tilly Bagshawe. Ele, afinal, morreu em 2007 e ela, por outro lado, tem lançado livros em sequência desde 2009. Como isso acontece?

Simples: os herdeiros de Sheldon resolveram transformar o nome do autor numa espécie de marca. O que eles fazem, então, é colocar os romances de Bagshawe -- que precisam ter alguma coisa a ver com o autor de Se Houver Amanhã, é claro -- debaixo desse guarda-chuva de gênero. A partir disso, já nasceram continuações de romances clássicos, novas histórias com personagens queridos e outras coisas do gênero. Mas o que chama atenção é o que Bagshawe fez agora em A Viúva Silenciosa, o novo romance.

A trama do livro acompanha a vida de Nikki Roberts, uma psicóloga que se vê envolta em um mar de mortes. Primeiro de seu marido, que morre num acidente de carro. Ainda em luto, porém, ela ainda precisa confrontar dois assassinatos: primeiro de uma paciente, que é morta na saída de seu consultório; e outro de Treyvon Raymond, seu funcionário que era considerado um filho. Aí surge a grande questão: o que ocorre na vida de Roberts para que tantas pessoas ao seu redor tenham mortes tão brutais?

A partir daí, Bagshawe tece uma trama que fará o leitor assíduo de Sheldon pular da cadeira. E não por um motivo realmente positivo. O fato é que A Viúva Silenciosa é uma espécie de remake do clássico livro A Outra Face, que narra assassinatos ocorrendo ao redor do psicanalista Jud Stevens. É uma trama extremamente parecida, ainda que a autora britânica tenha inserido uma breve subtrama que pode causar um diferencial à primeira vista -- sobre narcotráfico e uma droga nova que está circulando na praça.

Ou seja: a originalidade do romance é quase nula. A autora, sem deixar isso claro, apropriou-se da ideia de Sheldon e a transformou num livro atual e com o seu estilo.

Fãs assíduos de Sheldon, dessa maneira, devem ficar descontentes -- afinal, vão comparar as duas histórias e, evidentemente, vão dar preferência para o que o autor escreveu. Mas não dá pra dizer que A Viúva Silenciosa é ruim. Pelo contrário. Afinal, por tomar a antiga trama de Sheldon para si, Bagshawe já sai na frente: a história é boa, tensa e com um emaranhado de situações que chama a atenção do leitor e faz com que ele fique com os olhos grudados nas páginas do livro. Difícil desgrudar antes do final.

Além disso, é interessante notar como o estilo de Bagshawe está se aproximando cada vez mais do de Sheldon, ainda que existam alguns problemas evidentes -- como alguns arcos que não são totalmente desenvolvidos ou, ainda, personagens que deveriam causar empatia mas que, no final, acabam se distanciando do leitor. Neste último caso, infelizmente, entra a protagonista Nikki Roberts, que se torna apenas mais uma personagem na multidão. Há pouco a dizer sobre ela e há mais empatia envolvendo os dois policiais e o detetive particular do que com ela. Fica uma sensação estranha.

Ao final, porém, pode-se dizer que A Viúva Silenciosa é um bom livro de entrada para o universo de Sidney Sheldon -- fãs assíduos, porém, devem ficar longe. A trama, afinal, é bem amarrada, com alguns arcos interessantes e um desfecho surpreendente, mas pouco difere do que Sheldon já contou em A Outra Face. É, assim, apenas um refresco, uma história para relembrar o que o autor contava frequentemente em seus livros e suas tramas inspiradas. Mas nada muito além disso, infelizmente. Bagshawe ainda precisa se provar para ser, como dizem por aí, o verdadeiro "Sidney Sheldon de saias".