• Matheus Mans

Resenha: 'As Coisas' é livro de contos moderno, forte e necessário


No conto Um Não Esquece o Outro, um diálogo entre personagens faz um bom resumo da importância do livro As Coisas, de Tobias Carvalho. "[Escrevo] histórias para falar dessas relações que existem. Tem uma caralhada de filmes com os dois caras se descobrindo, isso já vimos. Mas e depois? As relações das bichas são diferentes. A gente já não se encaixa em regras", diz um dos personagens, escritor, para um rapaz que acabou de conhecer e que quer ser tema de uma de suas histórias, talvez do novo livro.

E é isso. Ao longo de 143 páginas, o gaúcho Tobias Carvalho faz sua estreia de forma forte, impactante e necessário ao ir além dos clichês das relações gays que são retratadas de forma estereotipada, ou rasa, em filmes, livros, séries e coisas do tipo. A obra vai além e, em 23 contos, fala sobre todas as variantes que uma relação entre dois homens pode ter. Há a descoberta sexual na infância (no excelente Cassino Royale), há as coisas que saem dos trilhos (na divertida As Coisas que a Gente Faz pra Gozar), há as reações do pai ao desconfiar que o filho pode ser gay (com o fortíssimo conto O Breu).

São diversas camadas que compõem essa narrativa que forma uma única linha temática. E, o melhor de tudo, é que Tobias não se atém num único formato para contar suas histórias -- maior erro de contistas, sem dúvidas. Há histórias que reproduzem conversas por mensagens, outras que partem para uma verborragia mental. São vários tipos de narrativas que ajudam a dinamizar um livro de apenas um tema, ainda que o leque de possibilidades em cima das relações seja quase infinito. Tobias vai muito bem.

Dentro de todas as histórias, claro que algumas se destacam frente à outras. As já citadas O Breu e Cassino Royale são enérgicas, fortes e realistas -- a duplicidade ao fim desta primeira é sensacional, no ponto. Destaque, também, para os contos que se voltam à fluidez das relações e que remetem imediatamente ao Amor Líquido, de Bauman. Um ou outro parecem fugir da temática principal (como o impactante Água e o derradeiro A Razão pela qual Nasci), mas que acabam fazendo sentido no geral do livro.

Afinal, ao contrário do que pode parecer num primeiro momento, não há um foco único no sexo, mas nas relações. São coisas pouco faladas, ou até mesmo não ditas, e que ajudam a tirar esses clichês da cabeça. São histórias que naturalizam uma relação que já deveria ter sido naturalizada -- e nem deveria ter questionamentos sobre isso. Em suma, um livro forte, necessário, atual. Faz quebrar paradigmas, estereótipos e, principalmente, dá voz para os que estão sendo brutalmente calados nos últimos anos.

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