• Matheus Mans

Resenha: 'Herland: Terra das Mulheres' se atrapalha na ironia


Confesso que, quando virei a última página de Herland: Terra das Mulheres, pouca coisa fez sentido na minha cabeça. A história, publicada no alvorecer do século XX, é considerada uma das primeiras publicações feministas na literatura. E a premissa traz essa abordagem de maneira clara: homens, bárbaros e com a vida machucada, chegam numa terra onde só vivem mulheres. Homens nunca ali estiveram. Sociedade feminina.

Assim, a partir do ponto de vista de um dos homens que ali chegam para explorar e conhecer a região, a autora Charlotte Perkins Gilman questiona aspectos ainda presentes na sociedade, como debates sobre gênero; papel da mulher na sociedade e, mais especificamente, no mercado de trabalho; maternidade; importância na economia, na religião e na política. Enfim: uma série de questões que atravessam os séculos.

E aí você, caro leitor, se pergunta: por qual motivo eu disse que pouca coisa fazia sentido na minha cabeça? Ora, simples: a teoria não encaixa com o discurso. Isso parece até histriônico ou grandiloquente demais de se falar sobre uma obra que já atravessa gerações se reafirmando como feminista. Mas o fato é que é muito difícil notar a sutileza de uma irona utilizada por Charlotte. E assim, a história acaba se tornando ultrapassada.

Afinal, mais do que deixar a trama fluir, a autora insiste em tratá-la como uma espécie de tratado antropológico. Ainda que o começo seja dinâmico e interessante, Herland: Terra das Mulheres se desenvolve a partir de longos relatos do protagonista sobre conversas que teve com as mulheres dessa sociedade feminina. São, assim, conversas sobre religião, história, geografia, política, economia. Coisas que ficam acumuladas.

A narrativa não avança e se repete num sem fim de blá-blá-blá. Claro: há significado no que está sendo dito, senão o livro não ter persistido em importância até hoje. Charlotte faz algumas boas interpretações que transcendem as páginas dos livros e vão além.

Só que a história, propriamente dita, acaba presa numa trama de maternidade que não faz sentido, não encaixa e incomoda. É algo que parece ter ficado perdido no tempo e não conseguiu acompanhar o restante da narrativa através do século -- ao contrário de O Conto da Aia, por exemplo, que sobreviveu durante anos com uma narrativa intacta e, infelizmente, ainda moderna. Não é o caso deste livro, já empoeirada e envelhecido.

Obviamente, não sou ninguém para falar se esse livro ainda persiste como um bastião feminista -- quem deve dizer isso são as mulheres, não eu. Mas em termos de qualidade literária, como crítico posso julgar. E não foi feliz. Há boas intenções, boa premissa e boas mensagens. Mas o cansaço com o avançar das páginas, e a repetição excessiva de conversas numa história que não faz sentido, acaba vencendo. E o livro decepciona.

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