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  • Matheus Mans

Resenha: 'Infiltrado na Klan' é mais humano no livro do que no filme


Vencedor do Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes, o longa Infiltrado na Klan é uma das sensações do pré-período de premiações. Dirigido por Spike Lee, o filme já sai em disparada em direção ao Oscar e surpreende na 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Poucos sabem, porém, que o novo hype dos cinemas de 2018 é, também, um livro.

E que livraço! Escrito pelo próprio Ron Stallworth, a obra é um relato particular de como um dos primeiros detetives negros dos Estados Unidos assumiu uma investigação contra o grupo supremacista Ku Klux Klan. Iniciando este trabalho quase sem querer e transformando-o em algo maior do que poderia imaginar, Stallworth mostra, sem inflar o próprio ego, como foi profissional, ágil e esperto durante a condução da investigação.

Afinal, ainda que narre toda a trama na primeira pessoa, o autor e ex-detetive não está contando sua história de maneira banal ou pouco interessante. Sabendo do pedaço de ouro que possui em mãos, Stallworth vai direto ao ponto com uma escrita leve, ritmada e que não perde o fôlego. Ele mostra o factual ao longo das cerca de 200 páginas, mas sem deixar o brilho e o aspecto inusitado dessa sua história à margem.

O resultado é um livro brilhante. Ainda que tenha o habitual ar de factual e pouco literário de relatos pessoais, ele consegue compensar pela curiosidade ao redor da trama e de como essa situação inusitada se desenrolou. Mais delicado e sensível do que o diretor Spike Lee, Stallworth consegue trazer sensações íntimas que são impossíveis de reproduzir na tela grande, mas que ganham força e eficiência pelas palavras bem escolhidas do ex-detetive. É impactante, curioso, às vezes divertido e muito atual.

Afinal, por mais triste que seja a constatação, a situação descrita pelo autor ainda ressoa de maneira perturbadora no cotidiano de todo o mundo -- inclusive, de maneira muito persistente, no Brasil. David Duke, uma das pessoas com quem Stallworth se relaciona na KKK, por exemplo, foi uma das pessoas que declarou apoio ao candidato Jair Bolsonaro. Há, também, casos frequentes e persistentes que envolvem racismo, principalmente o estrutural. É importante que um livro como Infiltrado na Klan traga o passado para que todas pessoas, de alguma maneira, possam repensar seus futuros.

Infiltrado na Klan, assim, se mostra como uma boa história -- seja no cinema ou na literatura. É daquelas oportunidades raras, quando um feito real consegue ultrapassar as barreiras da mídia na qual é contata e se unificar na memória das pessoas. Ao invés de se repelirem, livro e filme criam uma unidade ao redor de um tema importante, forte e atual. Leia o livro, veja o filme. Sem dúvidas, não vai se arrepender e a mente deve se abrir.