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  • Matheus Mans

Resenha: 'Múltipla Escolha' é livro ousado, criativo e fora dos padrões


Quando virei a última página de Múltipla Escolha, a primeira pergunta que veio na minha cabeça foi: o que eu acabei de ler? Afinal, esta obra de Alejandro Zambra (de Bonsai & A Vida Privada das Árvores) não é um romance com começo, meio e fim. Aliás, nem mesmo é um romance. O que o chileno faz aqui é algo inédito, original, inventivo. Um poema concreto, talvez? O que é?


Em Múltipla Escolha, o autor segue exatamente o que fiz no título. Brinca com as provas de múltipla escolha, como ENEM e Fuvest, e estrutura toda a história em perguntas e respostas com várias opções. A, B, C, D. No começo, a experiência é estranha. Afinal, parece realmente uma prova. Fica difícil, logo de cara, entender o que Zambra quer realmente fazer nessas páginas.


No entanto, logo sua faceta de poeta ganha ainda mais força. E nessa mistura de poesia abstrata com romance, o autor começa a inserir uma narrativa nessas múltiplas escolhas. Em perguntas e respostas inteligentes, Zambra vai falando sobre o Chile, assim como sua sociedade e sua política. Ao longo de 90 questões, ele reflete, crítica, pensa e nos faz pensar. Brinca com espaço.


Do lado do leitor, da nossa visão, temos não apenas múltiplas escolhas nas páginas, como também na nossa interpretação. A partir da sagacidade do autor, conseguimos a partir de seu texto compreender diversas formas de encarar aquele texto. Há alguns vazios e momentos mais complicados, que incomodam e nos tiram do livro. Mas, no geral, é um texto muito profundo.


Zambra, afinal, faz poesia se misturar com o romance enquanto bate. Bate na ditadura chilena, inclusive reverberando na história do Brasil. Bate na sociedade de hoje. Bate nos costumes. É um livro deveras melancólico, com alguns caminhos complicados -- e isso até contribui para a nota cair um pouco, quase que se não houvesse saída. No Brasil de hoje, o livro faz sentido.


Múltipla Escolha é mais uma prova de que Zambra é um gênio, uma daquelas raridades da literatura que faz os olhos brilharem. Não é uma leitura fácil, tampouco agradável. É forte, profunda, machuca. Mas a inventividade da história e do formato, com sua estrutura que vai avançando aos poucos, é um bálsamo. É daquela literatura que revigora. Vale a leitura.


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