Buscar
  • Matheus Mans

Resenha: 'O Beco das Ilusões Perdidas' é livro cru e indigesto


Que livro mais tinhoso é esse O Beco das Ilusões Perdidas. Ponto de partida do filme O Beco dos Pesadelos, filme de Guillermo Del Toro, o livro de 1946 é um choque, um espanto. Escrita por William Lindsay Gresham, a obra conta a história de Stan, o funcionário de um circo itinerante que fica chocado e curioso com um alcoólatra que se apresenta na atração como um selvagem. "Como ele chegou nesse ponto? Como esse homem se tornou selvagem?", questiona o rapaz.


Aos poucos, em uma narrativa guiada pelas cartas de tarô, vamos acompanhando a jornada de Stan: de aprendiz do circo, passando por assistente no espetáculo de leitura de mentes e adivinhação até se tornar um vidente cobiçado, que atende ricos e crédulos indicando futuro. No entanto, na vida pessoal de Stan, as coisas começam a sair dos trilhos quando ele conhece uma psiquiatra que, aos poucos, revela sua face. É uma história de ambição, de desejo, de loucura.


Com toques de Stephen King, que com certeza bebeu da influência de Gresham em algum momento de sua carreira, O Beco das Ilusões Perdidas traz uma narrativa desconcertante. Não há clemência na forma que o autor conduz seu personagem: a ambição é o ponto de partida de todas suas ações, enquanto uma névoa de álcool — vinda dos personagens e do autor — tomam de assalto a narrativa. É uma história previsível em ser imprevisível. Intensa, perturbadora.


O grande "xis da questão" aqui está na conexão do leitor com os personagens. Além de uma prosa um tanto quanto complicada e pessoal demais de Gresham, que torna difícil para o leitor se acostumar com o que está sendo contado, há o problema da falta total de envolvimento com os personagens. Stan é um protagonista odiável e fora dos padrões, mas que não tem beleza em sua desconexão — conforme o conhecemos, a repulsa por seus atos e pensamentos só crescem.


O que leva o leitor a continuar a narrativa é a curiosidade. Até que ponto vai esse personagem? Não há carinho ou preocupação. Afinal, Gresham focou apenas em mostrar o pior do ser humano quando está contaminado por um desejo de posse, de ambição desenfreada. De novo recorrendo à King, lembrando um pouco A Zona Morta, nessa questão de vidência, obsessão e afins. Fica a dica, então, para os que gostam de saber até onde as pessoas chegam. Quem é o selvagem?

 

0 comentário