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  • Foto do escritorMatheus Mans

'Rio Doce' reflete sobre identidade e paternidade em drama intimista


Se há um tema que sempre insiste em voltar no cinema nacional, com razão, é identidade na paternidade. Oras, os números são impressionantes: em 2021, 96.282 crianças das 1.586.938 nascidas não receberam o nome do pai. Saber quem é o pai, ou pelo menos ter uma ideia de quem é a pessoa, pode ser mais importante do que parece -- mesmo quando o filho não está procurando ativamente essa figura paterna. E é justamente isso que fala o filme Rio Doce.


Estreia da última quinta-feira, 20 de abril, o longa-metragem dirigido por Fellipe Fernandes (do curta Tempestade) fala sobre Tiago (Okado do Canal), um jovem trabalhador que descobre a identidade do pai ausente quando conhece as suas meias-irmãs, fato que o leva a questionar a sua própria identidade às vésperas de completar 28 anos. Morando em Rio Doce, na periferia de Olinda, região metropolitana do Recife, ele luta para encontrar seu lugar no mundo. Nesse processo, ele fortalece laços afetivos, transformando assim sua forma de ser e de ver o mundo.


"Como construir uma paternidade distante dos modelos falhos com os quais me relacionei até aqui, que inclusive nunca estiveram preocupados em encarar um processo de auto-reflexão?", questiona Fellipe Fernandes, diretor do filme, em entrevista ao Esquina. Abaixo, confira o papo completo com o cineasta, que fala sobre paternidade, volta às origens e Okada do Canal.


Esquina da Cultura: Como foi a experiência, pra você, de retratar Rio Doce nos cinemas? Como foi essa revisita à cidade?


Fellipe Fernandes: Pra mim foi muito importante poder levar para a tela do cinema essa paisagem humana e espacial tão familiar, que povoou durante a vida toda as histórias do mundo que eu habito. E à medida que mergulhava nesse retrato entendia que para compreender Rio Doce, era preciso olhar também para outros lugares da Região Metropolitana do Recife. Foi muito importante também entender na prática como o espaço está presente nos rostos das pessoas, na fala, vocabulário, não apenas na paisagem e essa compreensão foi fundamental para a construção dramatúrgica do filme.


Esquina: Você é pai e, claro, também é filho. Como a sua experiência ajudou a contar a história do filme?


Fellipe: A paternidade sempre foi um dos temas centrais do roteiro, mas o tratamento do tema ganhou outra camada a partir do momento em me tornei pai, porque deixa de ser algo que me relaciono a partir de uma certa passividade e torna-se uma questão diretamente ligada à minha identidade. E aí surge a pergunta: como construir uma paternidade distante dos modelos falhos com os quais me relacionei até aqui, que inclusive nunca estiveram preocupados em encarar um processo de auto-reflexão? Nesse sentido, essa experiência foi fundamental para construção da jornada de Tiago no filme e construção de um arco que se inicia com a contemplação da foto dele no braço do pai ausente e finaliza com a imagem dele com a própria filha no colo, atravessando uma avenida em construção, rumo à praia.


Esquina: Como foi sua troca com o Okado?


Fellipe: Foi muito construtiva, a gente se conecta em várias instância, ao mesmo tempo que se diferencia em tantas outras. Aprendi muito com ele, ainda aprendo, e essa troca foi fundamental para a construção do filme. As coisas que nos diferem, em trajetória e identidade, parecem mais ser combustíveis para a troca do que barreira. Muito da nossa conexão se dá naquilo que também compartilhamos com Tiago, uma perspectiva de mundo moldada pelas dificuldades de desenvolver uma certa sensibilidade artística na periferia que acaba nos levando a construir outros modelos de masculinidade, distantes dos que nos rodearam durante o nosso amadurecimento.

 

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