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  • Matheus Mans

Sem Beth Carvalho, samba precisa renascer e se reencontrar


Mais do que intérprete de clássicos como Coisinha do Pai e Vou Festejar, Beth Carvalho causou encontros e renascimentos no samba. Chamada de "madrinha", ela foi responsável por lançar nomes como Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Arlindo Cruz. Sem Beth, eles ainda poderiam ser meros desconhecidos nas rodas de samba cariocas. E mais: conta-se a história de que Beth, certa vez, encontrou Cartola, que andava meio esquecido. Perguntou se ele tinha samba novo. E ele apresentou As Rosas não Falam.

Ou seja: Beth Carvalho trouxe marcos do gênero com sua voz levemente anasalada, rítmica, mas também povoou o "mercado" do samba. Madrinha, de honra e fato. Algo que hoje, infelizmente, não se vê mais. Com a morte de Beth, que já estava acamada desde o começo do ano e sem conseguir se mover direito desde 2017, o samba perde a força de renascimento, de descoberta. Sem uma força motriz por trás, como era a "madrinha", periga de outros Zecas, Arlindos e Jorges ficarem perdidos nos morros.

Por isso, sem Beth, o samba precisa renascer e se reencontrar. Já perdeu a Rainha, Dona Ivone. Agora, sem a madrinha, fica quase sem norte, sem direção. Sucateado nos últimos anos pela levada pop que produtores insistiram em colocar, o samba da palma de mão, da batida no prato e da sonoridade do morro ficaram pra trás. Nomes do samba, seja de qual vertente for, ficaram esquecidos, deixados de lado. Luiz Ayrão, Benito di Paula. Ainda que estejamos na era digital, ainda é precisa de Beths por aí.

Por isso, nesse momento de tristeza -- e de celebração também -- é preciso que o samba se reorganize, renasça. A raiz precisa ficar na frente da copa. Até das flores. Sem a ligação direta com a essência do ritmo, o samba tende a ficar cada vez menor, mais sobrecarregado, mais sobrepujado de outros gêneros musicais que vão consumindo as atenções. É preciso de madrinhas, rainhas, reis, padrinhos. Quem está nesse posto hoje? Quem possui o mesmo tino mercadológico e musical que Beth tinha? Difícil dizer.

Beth era uma força, uma luz, uma ventania. Trouxe alegria, reflexão, coragem, resistência. Ficou firme, até o último momento, chegando a se apresentar deitada. Mesmo internada desde o começo do ano, tinha shows marcados pela frente. Afinal, o samba era sua essência. Sem ele, não teria Beth Carvalho. E, arrisco dizer, que não existiria o samba que conhecemos hoje sem Beth. Um alimentava o outro. Vai fazer falta sua voz, força e luz. Que o samba, neste momento, saiba renascer e se reinventar.

"Já me fiz a guerra Por não saber Que esta terra encerra Meu bem-querer E jamais termina Meu caminhar Só o amor me ensina Onde vou chegar"