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  • Matheus Mans

'Stalker', da TAG, é livro ousado, mas pouco emocionante


Depois de um começo quase desastroso com A Boa Filha, o clube de assinaturas TAG Inéditos voltou a apostar no gênero policial para apresentar a história Stalker, da sul-africana Tarryn Fisher. Sem dúvidas, há uma melhora significativa em relação ao primeiro livro da caixa -- tanto em termos de edição quanto de história --, mas ainda com problemas para emocionar e encantar seus assinantes, que esperam por um livro grandioso.

A trama é um pouco genérica, reverberando em histórias como Misery e do filme Baseado Numa História Real: acompanhando a mente da personagem Fig, o leitor vai de encontro com uma trama cheia de estranhezas. Afinal, a protagonista é uma pessoa infeliz e que tenta, a todo custo, entrar na vida de uma mulher anônima que está sempre num parque da vizinhança.

A obsessão em se esgueirar na vida dessa outra mulher é tanta que Fig chega a comprar uma casa vizinha e, assim, passa a entrar na rotina de seu alvo, de seu marido e da pequena filha.

É, sem dúvidas, uma trama que perturba e incomoda -- ainda mais por ser narrada a partir da perspectiva de Fig nos primeiros capítulos. De maneira tortuosa, mas bem feita, o leitor acaba por ver a situação toda pelo olhar da protagonista, perturbada por algum tipo de esquizofrenia. É, sem dúvidas, bem escrito, bem construído e com bons efeitos na leitura.

Os outros personagens -- da mulher observada e de seu marido, principalmente -- também ganham camadas interessantes com o decorrer da leitura. Com personalidades e arquétipos muito bem construídos, eles chamam a atenção por não tornar a história maniqueísta como seria nas mãos de um escritor preguiçoso. É um caminho pouco natural e que surte efeitos.

No entanto, nem tudo são flores na trama de Fisher. Ainda que seus personagens tenham uma construção digna de aplausos, a narrativa que permeia esses tipos é frágil e pouco interessante. No anseio de criar grandes perfis psicológicos, a autora acaba por esquecer de desenvolver a trama e se apoia totalmente no desenvolvimento de seus personagens. E isso é visível para qualquer leitor médio, já que a história vai perdendo o fôlego.

Há, por exemplo, passagens com destaques que são completamente esquecidas -- o que foi aquela história da carteira? -- e há um investimento em subtramas que não vão à lugar algum. Há uma reviravolta, também, interessante, mas que é muito específica e fora do espectro do que estava sendo tratado até então. Surpreende, sim, mas traz um sentimento forte de estranheza com o que está sendo lido. Parece uma jogada suja da autora.

Stalker, por fim, pode ser considerado um livro bom. A edição está primorosa pelas mãos da Faro Editorial; a capa é belíssima; o título, ainda que muito diferente do original (Bad Mommy), faz sentido; e a história conta com uma ótima construção de personagens. Pena que faltou mais história, mais narrativa, mais criação de cenas e de situações. Com isso, talvez, Stalker já seria um começo glorioso da TAG. Mas ainda não. Fica pra próxima caixa.