Crítica: 'Fahrenheit 451', da HBO, tenta, mas não consegue emocionar

21/05/2018

Atualmente, a HBO se posta como uma das principais concorrentes da Netflix no mercado digital de televisão e do cinema. Curiosamente, porém, as duas empresas possuem os mesmos tipos de erros e de acertos: enquanto produzem séries memoráveis, como Game of Thrones House of Cards, as duas empresas ainda não conseguiram um filme que seja mais do que razoável em suas qualidades técnicas ou narrativas. 

 

A nova aposta da HBO -- após os medianos O Mago das Mentiras Paterno -- é o longa-metragem Fahrenheit 451. Adaptado do clássico livro homônimo de Ray Bradbury, o filme acompanha a rotina de uma sociedade distópica na qual a literatura não é aceita pelo governo. Para combater qualquer tipo de escritos, então, bombeiros são colocados nas ruas para identificar rebeldes e pôr fogo nas obras literárias.

 

Além de ser um clássico da literatura moderna, Fahrenheit 451 também é uma obra já conhecida no cinema, adaptada pelo genial François Truffaut em 1966. O objetivo da HBO, então, é compreensível: pegar uma história clássica da literatura, que possui um filme com mais de 50 anos, e deixá-la mais atual e palatável -- principalmente para o público jovem. No entanto, novamente, o canal americano volta a tropeçar e apresenta uma obra irregular.

 

O elenco é um dos acertos da produção que saltam aos olhos. Ainda que Sofia Boutella (A Múmia e Atômica) esteja pouco expressiva como sempre, Michael B. Jordan (Creed  e  Pantera Negra) e Michael Shannon (A Forma da Água) estão espetaculares. O primeiro como um bombeiro que começa a questionar os objetivos do Estado, indo fundo nos motivos da resistência, e o segundo como um homem fiel às tradições. Shannon merece um Oscar logo.

E a modernização da trama também funciona na tela. Afinal, não faz sentido investir na televisão como o principal meio das massas tendo redes sociais muito mais manipuláveis e influenciáveis hoje em dia. Nesse ponto, a obra ganha a passos largos da primeira adaptação, ainda que haja alguns exageros visíveis e que tirem a audiência do foco principal. No geral, porém, as alfinetadas e a sutil ironia à modernização funcionam e cumprem seu papel.

 

Além disso, o livro de Ray Bradbury tem uma narrativa um tanto quanto dispersa e pouco lógica. Assim, é inevitável que o diretor e roteirista Ramin Bahrani (do subestimado 99 Homes) crie uma história nova a partir da semente plantada pelo livro distópico. Aqui, a decisão resvala em 1984 ao mostrar um casal que se apaixona e que, com isso, passa a questionar as decisões do governo. Tinha tudo para dar certo, mas...

 

Boutella, como já dito, é muito fraca -- ainda não deu pra entender onde acharam o talento dela. A química entre a personagem dela e o de Jordan gera apenas faíscas e não emociona. Além disso, há momentos que a produção exige momentos grandiosos, impactantes, fortes. Mas Bahrani -- ou a HBO, vá saber -- optou por transformar o filme numa obra, unicamente, pra TV, ao contrário do que a Netflix faz. A técnica é muito pobre e sem vida.

 

E curiosamente, Bahrani não conseguiu reverter essa limitação ao investir em cenas e momentos mais introspectivos, sentimentais. Ele, ao longo dos 100 minutos de projeção, investe desesperadamente nos momentos grandioso -- que não existem -- e deixa de lado qualquer tipo de cena mais emocionante. Fica uma coisa confusa e irregular ao final. Um filme confuso, sem dúvidas.

 

Fahrenheit 451, assim, acerta em alguns pontos, como a dupla de protagonistas, algumas modernizações e até no visual escurecido, mas cheio de brilhos neon. Mas não consegue escapar das fórmulas limitadoras dos filmes para TV e a dificuldade do diretor em aceitar o que tem em mãos. Talvez seja hora da HBO se posicionar para definir se vai continuar só na TV ou buscar ir além junto com Amazon, Hulu e Disney. Desse jeito, vai ficar pra trás.

 

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