Resenha: 'Janete' é livro saboroso que brinca com viagem no tempo

22/08/2019

Já falamos, há algum tempo, do divertido escritor Nicolás Irurzun aqui no Esquina. Dono de um estilo leve e bem-humorado, o autor argentino -- mas criado no Brasil -- escreve tramas que combinam situações mirabolantes com dramas dolorosamente humanos. E é aí daí que surge seu humor, inconfundível para quem já leu ao menos uma de suas história. Agora, ele volta às prateleiras com o saboroso Janete, livro que traz mais uma boa personagem feminina com um ingrediente a mais: uma bizarra aventura no tempo.

 

A trama de Janete começa a partir do romance de dois idosos: Silas e a mulher que dá nome ao livro. No entanto, o amor dos dois é brutalmente interrompido quando Janete morre, subitamente, voltando pra casa. Silas fica sem chão. Não acredita que, depois de muito procurar, perdeu o amor de sua vida num estalar de dedos. O que ele nem imagina, porém, é que o destino (ou uma magia bizarra do cosmos) fará com que ele faça uma viagem de 30 anos ao passado. Lá, terá a chance de rever sua querida Janete.

 

Quem leu Dândis de Selma, a obra anterior de Irurzun, já sabe que essa premissa não será desenrolada por suas 139 páginas de maneira banal. O autor argentino-brasileiro consegue criar situações impensáveis. Personagens, novamente bem desenvolvidos, desfilam em cenas e sequências impagáveis. Estilos também se misturam: há um breve suspense no início, brincadeiras com espionagem, dramas pessoais, comédias de tipos. Curiosamente, porém, essa mistura inusitada faz sentido ao final. A história é boa.

 

Afinal, Irurzun, desde a primeira página, se dedica a criar a ambientação para que esse caldeirão de referências e estilos não se perca. O personagem Silas, por exemplo, é gente como a gente. Coleciona alguns fracassos, algumas frustrações. Mas segue em frente, custe o que custar. Sua empreitada inicial para achar Janete, num passado distante em que ele vivia harmoniosamente com sua família, é um retrato do que é esse livro: pouco convencional, mas com o pé no chão com os personagens. E bem divertido.

 

Janete, enquanto isso, consegue ser ainda mais interessante do que Selma. Ela é repleta de mistérios, surpreende a audiência e vai revelando camadas interessantes. Se você ler o livro, faço o convite: compare a Janete do começo com a do final. O arco desenvolvido por Irurzun é exemplar. E, se para pra pensar, faz total sentido na trama.

 

Difícil, ao final da leitura, não ter um sorriso no rosto. É daqueles livros que divertem a cada página e mostram como histórias podem apostar na esquisitice e no inexplicável para falar sobre o que somos, o que podemos viver. Janete, mais do que falar sobre um homem atrás do amor de sua vida, fala sobre a pequenez da vida e sobre a ação do tempo. As coisas mudam, evoluem. E Irurzun, do alto de seu bom-humor e ironia, soube dosar isso nas 139 páginas de seu romance. Vá por mim, leia. Vai te fazer rir de verdade.

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