Buscar
  • Matheus Mans

A história por trás de 'O Retrato de Dorian Gray', de Oscar Wilde

Cena do longa-metragem 'Dorian Grey', com Ben Barnes

O Retrato de Dorian Gray é uma obra que abalou o conservadorismo extremamente rígido da Grã-Bretanha na década de 1890. Com uma narrativa rápida e intensa, o irlandês Oscar Wilde chocou e intrigou o mundo ao apresentar a história de Dorian Gray, um jovem ingênuo com uma beleza inimaginável.


Ele serve como modelo e inspiração para Basil Hallward, um pintor que fica fascinado pelo jovem. Tal fascínio acaba por despertar a curiosidade de Lord Henry Wotton, amigo do pintor, que deseja conhecer e conversar com o modelo de Basil.


Assim, em uma das sessões de pintura, na qual Basil faz um retrato fiel de Gray, Wotton inicia uma longa conversa com ele, apresentando alguns de seus ideais hedonistas e fazendo com que a moral do jovem seja totalmente deturpada. É neste momento que Dorian Gray deseja algo inimaginável: ser eternamente belo, mesmo que para isso, a inteligência e a moral sejam postas em detrimento. Então, misteriosamente, o retrato que estava sendo pintado por Basil torna-se a alma de Gray.


É a pintura que absorverá não só a passagem do tempo, envelhecendo no lugar do jovem, como também os pecados do protagonista, que ficará livre para viver sem nenhum tipo de consciência moral. Tudo isso em prol de uma vida em que a beleza e os prazeres são seus únicos objetivos.


Apenas este enredo apresentado seria o bastante para chocar a sociedade extremamente conservadora da época. Viver uma vida sem nenhum tipo de moral era algo fora de qualquer tipo de realidade, principalmente na conservadora Inglaterra de 1890. Porém, Wilde vai além e choca ainda mais: cria na trama uma insinuação de uma relação homoerótica entre Dorian Gray e o pintor Basil Hallward.


Se em pleno século XXI, no qual vivemos, há ainda um forte preconceito contra os homossexuais, já é possível de se imaginar como era tratado o assunto no final do século XIX: era crime. Caso fosse provado que o sujeito não possuía uma “moral rígida”, seria encaminhado para a prisão imediatamente.


O autor irlandês, inclusive, foi preso posteriormente ao ter sua homossexualidade provada. Isso mostra o quão a frente de seu tempo estava Wilde. Escrever sobre o assunto era algo impensável dentre os autores pertencentes à Belle Époque, movimento vigente da época.


Choque social


O Retrato de Dorian Gray, obviamente, não foi publicado em sua íntegra. O choque pela temática tratada abalou demais a burguesia inglesa. Muitos trechos, principalmente os que insinuavam o romance homoerótico entre Basil e Gray, foram censurados e permaneceram assim por muitos anos.


Só que um fator fazia a diferença: quem censurou a obra, alterando-a até deixá-la no ponto de ser publicada, foi o próprio Wilde. Com isso, o autor apenas mascarou as cenas mais “fortes”, fazendo com que se tornassem subjetivas através do uso da palavra. Elas continuavam ali, só que escondidas.


Porém, não eram só as relações homoeróticas que eram encobertas. Wilde tinha o costume de colocar um dos personagens, no caso desta obra, Lord Henry, como seu porta-voz para criticar costumes, atitudes e idiossincrasias da época e da aristocracia. Obviamente, tais críticas não passariam incólumes pela censura.

Oscar Wilde, o autor irlandês

Por isso, Wilde se beneficiou da magia das palavras e através do uso da semiótica. Assim, a maioria das críticas não era direta. Eram embutidas em frases elaboradas ou até mesmo em objetos e cores envolvidos em cena. Até hoje estudiosos debatem e discutem sobre o real significado de algumas falas ou a presença de objetos.


Com isso, os diálogos dos personagens, recheados de deboche, cinismo e sarcasmo, principalmente os de Lord Henry, acabaram se tornando importantíssimos para a obra como um todo, alçando um destaque ainda maior que a própria descrição e as falas de Dorian Gray.


O trecho abaixo ilustra perfeitamente tal colocação do autor. É praticamente possível ver Wilde dizendo isso. É uma crítica direta e dura à sociedade inglesa do século XIX e que valoriza a ciência, ainda desacredita e sem uma força social.


“Não desejo mudar nada em Inglaterra, exceto o tempo. Satisfaz-me bastante a reflexão filosófica. Mas, como o século XIX abriu falência devido a um excesso de dispêndio com a simpatia, eu sugeria que recorrêssemos à Ciência para nos organizar. A vantagem das emoções é a de nos extraviar, e a vantagem da Ciência é a de não ter emoções.”


Seguindo a corrente


Vale frisar que O Retrato de Dorian Gray foge completamente de qualquer vanguarda pertencente à Belle Époque. A obra era, na verdade, esteticista e hedonista, duas correntes filosóficas que tinham o belo e o prazer como finalidades. Porém, é claro que Wilde não foge de uma ética vigente, apesar de buscar uma nova concepção a todo o tempo.


Em minha opinião, os fatos apresentados acima já eram o bastante para que O Retrato de Dorian Gray se tornasse um clássico e que sua leitura fosse algo obrigatório. Porém, é claro que a história vai muito além e tem uma importância ainda maior: a sua atemporalidade.


Apesar de ter sido escrito há mais de 120 anos, a busca pela beleza, em detrimento de qualquer outra qualidade, é uma discussão extremamente atual. Qual o limite que deve ser estabelecido pela busca do belo? Há um limite?


Vivemos em uma época de ditadura da beleza. Vivemos em um mundo onde o narcisismo impera e consome de forma intensa e destruidora de muitos jovens. A moral e a inteligência, tal qual em Dorian Gray, são postas completamente de lado. Assim, a beleza fica num patamar superior ao da chamada “beleza interior”. É mais atrativo e benéfico cultivar os músculos que a inteligência. É o narcisismo mais puro e verdadeiro que se poderia viver.


O Narcisismo hoje


Porém, antes de se prolongar a discussão sobre narcisismo e Dorian Gray, vale comentar brevemente sobre a origem do primeiro termo. O narcisismo surgiu diante do mito de Narciso, que, tal qual Gray, era fascinado por sua beleza a ponto de não parar, em momento algum, de observar seu reflexo em um rio. Narciso simplesmente definhou observando sua imagem refletida. Esqueceu-se de viver.


E é exatamente isso que acomete a geração atual. O narcisismo infla a mente das pessoas e as faz ter o mesmo desejo de Gray: perpetuar a juventude através da eternidade. Porém, é claro, de uma maneira atualizada. O jovem, obcecados por beleza, é Dorian Gray, que se mantém belo e jovem por fora, mas envelhece interiormente.


Basil, que pintou o retrato e mostrou o ideal de beleza para o jovem, é a TV e os demais meios de comunicação, que moldam a imagem ideal e as passam aos que consomem o produto distribuído pelos meios. E Lord Henry são os que se interessam por haver um padrão de beleza, os que lucram e se beneficiam disso.


Tal qual o personagem de Wilde, ele enche a mente de Gray com ideais hedonistas. Aí está feito. A beleza vira o objetivo de vida da pessoa e o narcisismo se torna um fato social.


“A pintura não poderia, pois, ficar assinalada pelas linhas de sofrimento e dúvida enquanto ele conservasse o desabrochar delicado e a lindeza de sua adolescência?" 

Esta sociedade narcisista na qual vivemos acaba por se tornar extremamente prejudicial pelo fato de que a moral e, principalmente, o exercício da inteligência são postos de lado. Isso acaba por deixar a sociedade doente.


E é aí que entra a importância de se ler O Retrato de Dorian Gray.


Apesar de estar recheada de preceitos hedonísticos e esteticistas, a obra acaba por mostrar um efeito contrário. Fica claro que deixar a beleza como objetivo final de qualquer pessoa faz com que a vida da pessoa não evolua e que contraia aspectos negativos. Assim, ao ler a obra de Wilde, a pessoa pode se deparar com o que aqui foi exposto e, assim, compreender melhor a sociedade na qual estamos imersos.


Vale citar também a longa margem de interpretação que a obra pode ser utilizada. Afinal, a vaidade é algo que pode ser amplamente discutido. Durante as manifestações de 2013, a revista Caros Amigos publicou um artigo, de Jean P. de Menezes, onde debatia a relação da obra de Wilde com o movimento que queria proibir a adesão de partidos às manifestações.


Assim, o autor do texto fez uma relação interessantíssima com a obra de Wilde:


“A vaidade fora bem abordada por Oscar Wilde em sua obra O Retrato de Dorian Gray, onde esta característica se manifesta da forma mais abusiva diante das relações sociais demonstrando que o vaidoso apresenta plena sintonia com a sociedade capitalista do século XIX, e diria: se estendendo à sociedade capitalista atual.”

Independente de concordar ou não com a visão do autor do artigo, fica claro o quão atual é a obra do autor irlandês. Além de ser aplicável a diversas situações da vida cotidiana atual.


Além, é claro, de obter uma carga literária muito intensa e importante para uma formação humanística que a pessoa que vier a ler a obra de Wilde. A busca por significados ocultos em palavras, objetos, atos, falas.


A importância da discussão velada sobre a homossexualidade. Tudo isso faz com que O Retrato de Dorian Gray se torne um livro impossível de não se ler e imperdível. Um livro que, ao contrário do status quo vigente de embelezamento exterior, irá expandir os horizontes da mente de qualquer um que o ler.

#Literatura #Análise #Reportagem #Livro #LiteraturaClássica #LiteraturaInglesa #Livros

2 comentários