• Matheus Mans

Análise: Oscar surpreende e faz cerimônia histórica em 2020


Tudo indicava que o Oscar 2020 seria mais do mesmo. Afinal, os prêmios principais da noite aparentavam estar "marcados" para 1917, Sam Mendes, Brad Pitt, Laura Dern, Renée Zellweger e Joaquin Phoenix. A sensação de que seria mais do mesmo começou a se confirmar quando os prêmios técnicos foram distribuídos, sem qualquer tipo de surpresa ou ousadia. Era marasmo.


O medo de que a cerimônia se tornasse uma bobagem completa -- como foi na triste edição de 2019 -- cresceu quando Ford vs Ferrari ganhou Melhor Montagem em cima de Parasita.


No entanto, que surpresa! Primeiro Parasita em Melhor Roteiro Original -- uma aposta segura, neste caso, seria Era Uma Vez em... Hollywood. Jojo Rabbit também não estava previsto na maioria das apostas para Roteiro Adaptado. Mas esta foi uma surpresa negativa, já que os roteiros de O Irlandês e, principalmente, Adoráveis Mulheres mereciam muito mais o prêmio.


No entanto, lá pelas altas horas, a grande surpresa da noite: Bong Joon-Ho ganha Oscar de Melhor Direção por Parasita e desbanca o favoritíssimo Sam Mendes, de 1917 -- o britânico, aliás, fez uma careta desconfortável, e muito chata, quando Spike Lee leu o nome do colega coreano. Era o indício de que a surpresa da noite poderia vir a galope, em Melhor Filme.


E veio! Contrariando todas as apostas mais seguras, Parasita fez história. Se tornou o primeiro filme de língua não-inglesa a arrematar o principal Oscar. Além disso, conquistou um conjunto de prêmios invejável em sua trajetória: levou Cannes, Globo de Ouro, BAFTA e Oscar de Melhor Filme, de Melhor Roteiro Original, de Melhor Direção, de Melhor Filme Internacional. Ufa!

É um marco na história do cinema. Não dá pra dizer, com certeza, que é um movimento que irá se perpetuar -- afinal, o Oscar por vezes surpreende, e depois volta a premiar um Green Book da vida. No entanto, não dá pra ignorar os fatos: o Oscar, em 2020, olhou para um filme que ganhou as plateias e a crítica com trama de crítica social, forte e poderosa, e se consagrou no Oscar.


A Netflix, enquanto isso, encara de frente a barreira do streaming novamente. Levou só dois prêmios -- Melhor Atriz Coadjuvante por Laura Dern e Melhor Documentário por American Factory -- em meio a um número sem fim de indicações. O Irlandês saiu de mãos abanando, assim como Dois Papas. Um resultado bem mais fraco quando comparado com ano passado.


Tomara que isso seja uma mostra de que a Academia vai privilegiar o Cinema -- não que a Netflix não faça Cinema, mas é evidente seu desgosto pela sala escura. E Cinema, principalmente, acima de preconceitos, medos, covardias. Que o Oscar mude o que realizou ao longo da década de 2010 e premie os filmes verdadeiramente bons. Não bobagens mornas.


Por fim, sobre a cerimônia em si, vale ressaltar que foi a melhor em ANOS: ágil, bem montada, com bons números artísticos e sem bobagens como a do Ricky Gervais durante o Globo de Ouro. Valorizou o espetáculo e o cinema. Se continuar assim, nos próximos anos, o Oscar poderá voltar a se reconectar com o público e com a sua disseminada audiência ao redor de todo Globo.


Agora, a torcida é para que a diversidade se torne algo natural, não uma obrigação. Se isso acontecer, o Oscar voltará a ser um programa imperdível e gostoso de assistir. Quem sabe?

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