• Matheus Mans

Autora de 'Microscópio' fala sobre poder de síntese de microcontos


É muito difícil escrever um romance. Mas já tentou escrever um microconto? O poder de sintetizar uma história num único parágrafo, com emoções, personagens e até com reviravoltas, é um desafio. É preciso deixar a linha de raciocínio clara, falar apenas o essencial e, com essas ferramentas, atingir o leitor. E é assim: num piscar de olhos, tudo pode ser sentido e vivido.


E uma autora que não tem medo de mergulhar em narrativas assim é Delma Maria Lucchin. A escritora curitibana, que lançou recentemente o livro Microscópio pela editora InVerso, se dedica integralmente ao gênero em questão. Fala sobre amores, desamores, brincadeiras, memórias, dores e alegrias. Tudo ali, em um parágrafo, mostrando como a literatura está em todos lugares.


Abaixo, o Esquina conversou com Delma, via e-mail, sobre Microscópio, sobre o espaço de microcontos na literatura brasileira e sobre os planos futuros da autora no mercado editorial:


Esquina da Cultura: Como surgiu seu gosto pela literatura? Qual sua história?

Delma Maria Lucchin: Talvez por ser de uma família simples e ter estudado em escola pública, não tive muito acesso à literatura infantil quando criança. Comecei a ler na adolescência e juventude e não parei mais. Sempre li vários gêneros. Sou muito curiosa e talvez isso me leve por estilos variados. Em 2009 iniciei um trabalho voluntário de mediação e contação de histórias em hospitais. Me apaixonei pela literatura infantil, logo, minha história literária, como autora, iniciou com esse gênero.

Esquina: E como saltou para o gênero dos microcontos? Delma: Sempre gostei de escrever crônicas e contos. Um dia me deparei com um concurso de microcontos pela internet. Foi amor à primeira lida. Vi, na escrita de microcontos, uma oportunidade de treinar a escrita diariamente, sem passar horas em frente ao computador. Outra vantagem dos microcontos é poder transitar por diversos estilos, desde os mais poéticos aos mais sarcásticos. Considero isso fascinante.

Esquina: Qual o principal desafio em escrever histórias em tão poucas palavras?


Delma: Sem dúvida, é preciso ter um poder de síntese apurado. Muitas vezes o texto inicia maior, depois vou lapidando e cortando os excessos. É importante, também, deixar espaço para a interpretação do leitor. Num bom microconto, sempre há algo a mais nas entrelinhas. Sonho de consumo de um microcontista é conseguir surpreender o leitor com uma mudança drástica no roteiro (plot twist).

Esquina: Você também escreve microcontos com letras de mesmas iniciais -- os chamados microletrados. Qual a diferença desse tipo de literatura para os microcontos?

Delma: Os microletrados iniciaram numa brincadeira e, como adoro um bom desafio, me especializei neles. Os textos são inspirados nos tautogramas que, em grande maioria são poemas. Eu comecei chamar esses meus textos de microletrados e "pegou", não sei se existe algum outro nome para o que eu faço. A grande dificuldade é contar uma história com todas as palavras iniciadas com a mesma letra. É preciso ter um enredo, não se resume a um amontado de palavras. É trabalhoso, mas é um exercício bastante interessante e que desperta muita curiosidade.

Esquina: Tem espaço para os microcontos no mercado editorial? Como conquistar?

Delma: É um estilo pouco lido, ainda, no Brasil. Mas tenho esperança que melhore. Temos alguns nomes na literatura nacional que têm livros maravilhosos nesse estilo. Posso citar a Marina Colasanti (que eu adoro) e o João Anzanello Carrascoza. Ambos escrevem outros estilos e têm livros de microcontos. Eu escrevo bastante microcontos e posto nas redes sociais. É muito divertido ler o comentários das pessoas. Muita gente está começando olhar para esses textos com mais interesse, afinal, é uma escrita bastante elaborada, embora de pouco fôlego.


Esquina: E quais são seus projetos futuros? O que espera fazer depois de 'Microscópio'?

Delma: Escrever é um vício maravilhoso. Mal acabamos um projeto e já estamos pensando no que vem depois. Tenho quatro livros infantis publicados e algumas ideias para os próximos, mas ainda é preciso formatar melhor os projetos. Literatura infantil demanda um estudo maior, em função da ilustração e projeto gráfico que precisa ser muito bem pensado. Já tenho microcontos que poderiam compor mais um livro, talvez um "outras lentes", para dar continuidade ao Microscópio. Pensei também, embora seja um projeto audacioso, em escrever microletrados para crianças, acho que seria fascinante. Essa é a ideia que mais tem me encantado ultimamente.

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