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  • Matheus Mans

Carlos Gerbase cria documentário impossível em 'Bio'


Difícil não estranhar, em um primeiro momento, a estrutura e os objetivos de Bio. Dirigido pela gaúcho Carlos Gerbase, o longa-metragem conta a história de um protagonista invisível, que é tema de depoimentos espalhados por todo o filme. São 39 personagens que falam sobre o relacionamento com esse homem, formado em biologia e que viveu 100 anos. "A ideia mais importante foi a estrutura de Bio", conta Gerbase, em entrevista por telefone ao Esquina. "Não é um documentário falso convencional. É, na verdade, um documentário impossível. Teria que ser gravado através do século."

Como já dito aqui no Esquina, o longa-metragem é uma grata surpresa. Completo, complexo e, ao mesmo tempo, simples. Uma fórmula difícil de obter. Ainda assim, pelo ineditismo de seu formato, deve causar estranhamento nos espectadores. Mas o diretor diz estar tranquilo com a recepção. "É um filme maluco que começa como uma produção de época e termina como ficção científica. O protagonista não aparece em momento algum. Os personagens não ficam nem 5 minutos na tela", afirma. "Sei que não é fácil, mas se a pessoa prestar atenção, vai entender tudo. O filme se desenvolve."

Segundo ele, esse formato também ajudou nas gravações. Filmado todo em estúdio, e com apenas R$ 600 mil de orçamento, o longa-metragem exigia que os atores gravassem em apenas um dia. Geralmente, gravavam um dos depoimentos de manhã e outro no período da tarde. "Isso é uma maravilha pro diretor", diz Gerbase, feliz com o resultado. "A gente tinha um equipe pequena, mas muito profissional dentro do set. E mesmo com o orçamento apertado, conseguimos uma concepção visual muito rica e melhor do que eu imaginava. Foi um processo de filmagem intenso, mas criativo."

Além das artimanhas que usou para agilizar e baratear os custos de produção, às vezes usando um mesmo cenário para diferentes depoimentos, Gerbase também conta que usou e abusou do improviso. Os atores, claro, tinham um roteiro a ser seguido. No entanto, quando estavam filmando suas entrevistas sobre o protagonista ficcional, eram feitas perguntas que não estavam programadas. "Saía do roteiro, improvisava", contextualiza Gerbase, que contou com atores como Maria Fernanda Cândido, Marco Ricca e Maitê Proença no elenco. "Isso enriquecia a história e, claro, as atuações."

Futuro. No filme, o falso documentário transita da década de 1950 até o futuro, em 2070. Por isso, foi impossível não questionar o diretor sobre o que ele vê pela frente. Sobre a bilheteria do filme, que chegou aos cinemas na quinta-feira, 4, ele é honesto e diz que não espera muita coisa. "Vamos ser francos: tirando Minha Vida em Marte, o ano de 2018 foi péssimo pro cinema nacional. Até grandes filmes, feitos para ser blockbuster, não emplacaram", disse o diretor. "Meu filme vai ser aquilo. Uma ou duas semanas em cartaz. Afinal, começa com 17 salas. Mas depois, há outras possibilidades de janelas."

Puxando essas outras possibilidades, o Esquina perguntou para Gerbase como ele vê o futuro do cinema -- especificamente 2070, ano em que o longa encerra. Ainda vai ter cinema? Vamos ver documentários? Vamos ter essa possibilidade de viver até lá? "Sobre o homem viver mais de cem anos, tenho certeza. Vamos escolhe o momento de morrer", disse Gerbase, certeiro. "Já a história do cinema é mais difícil. Eu faço filmes há 40 anos. Os desafios são os mesmos: pegar a câmera e contar boas histórias. Independente de onde ou como for, isso vai continuar sendo o principal objetivo."