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  • Matheus Mans

Crítica: 'Adú' é filme emocionante, mas instável da Netflix


Assim como Babel ou Crash, o longa Adú se vale de um cruzamento de histórias, personagens e situações para construir sua narrativa. De um lado, o garoto que dá nome ao longa-metragem, que se vê obrigado a sair de Camarões. Há, também, um espanhol ajudando na guarda de uma reserva. E, por fim, um grupo de militares que se envolvem na morte de um refugiado.


E assim, com essas três histórias, o cineasta Salvador Calvo versa sobre infância, humanitarismo, família, amizade e outras coisas mais. É uma trama simples, mas que se vale desse cruzamento de histórias para aumentar sua amplitude, justificar a produção com assinatura espanhola e tentar dar um ar mais complexo para o que é contado por Calvo.


Logo de cara, assim, já fica evidente que há histórias sobrando aqui. A trama sobre o guarda espanhol (interpretado pelo sempre competente Luis Tosar, do recente Quem Com Ferro Fere) é totalmente dispensável, sem qualquer tipo de impacto direto. É o branco salvador, apenas. Já a dos militares criminosos, há algo de interessante por ali. Mas nada é bem aprofundado.


O pior, porém, fica na forma que Calvo finaliza o cruzamento das histórias. Principalmente a dos policiais criminosos, numa espécie de estranha e desconfortável redenção. Absolutamente não encaixa dentro da trama e serve apenas para que um público branco e europeu tente justificar erros que cometerem com refugiados. Uma grande bobagem.

Assim, a história de verdade aqui, que realmente importa, é a do pequeno Adú -- que, como o título promete, deveria ser o único protagonista desta produção. Ainda que sua história tenha exageros e alguns momentos sensacionalistas, como a queda do avião, ela é ágil, emocionante e, por vezes, desesperadora -- a mesma cena do avião, no começo, é de prender o fôlego.


Além disso, Moustapha Oumarou é um acontecimento. Assim como o menino de Cafarnaum, ele sabe lidar com as complexidades de seu personagem, envolto de questões humanitárias e complexas. Ele acaba dando um pouco mais de leveza à trama, tão cheia de momentos tristes e até mesmo exageradamente fortes -- a sequência do táxi é absolutamente desnecessária ali.

Se não fosse a força de Oumarou e a potência de sua história, mesmo atrapalhada por tantos elementos dissonantes, o longa-metragem seria uma das maiores bobagens de 2020. Sorte que há esse escape.


Enfim, Adú é um filme emocionante, forte, necessário, mas que erra a mão ao trazer a figura do branco salvador (Tosar, sem dúvidas, decepcionou aqui) e de exagerar nos tons. Se não fosse o eurocentrismo da produção, e houvesse uma proximidade maior de nomes do cinema africano, sem dúvidas este longa-metragem original da Netflix mereceria mais elogios. É uma pena.

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