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  • Matheus Mans

Crítica: 'Ambulância' é filme inchado, mas que traz Michael Bay mais acessível


Geralmente, a crítica especializada fala que tal filme de tal diretor é mais acessível quando analisa um cineasta mais complicado, mais difícil de entender, pouco popular. Por isso, é estranho colocar Michael Bay nesses termos. Ele é um dos cineastas mais populares, que nunca escondeu a vontade de fugir da intelectualidade e abraçar o cinema pipoca. Assim, fica a dúvida: como Ambulância: Um Dia de Crime é seu filme mais acessível? O que mudou na linguagem?


Simples: filmes como Transformers, A Ilha ou até mesmo Esquadrão 6 trazem a essência absoluta de Bay. Além de uma duração mais do que exagerada, há uma câmera tremida que não faz sentido quase nunca, uma fotografia de videoclipe estranhíssima, explosões para todo lado e um fiapo de narrativa que parece nunca encontrar um sentido próprio. Ainda que atraia um público que gosta de mergulhar em tramas sem preocupação, afasta quem quer algo a mais.


Lembro, como se fosse ontem, da minha experiência assistindo a Transformers: O Último Cavaleiro. A sala começou lotada, em um sábado à tarde. Ao fim de 1h de longa-metragem, mais da metade já tinha saído ou, então, estava apenas mexendo no celular. Com 1h30 dava para contar nos dedos a quantidade de pessoas na sala. E, confesso, não sei quantos ficaram até o fim: saí com duas horas de projeção, atormentado por tantas explosões e câmeras tremidas.

Michael Bay, ame-o ou deixe-o. Não há caminho do meio em seu cinema. Até Ambulância: Um Dia de Crime. Há, sim, elementos de Michael Bay na produção: a câmera tremida está lá, assim como a duração exagerada com mais de 2h15. No entanto, em algo quase inédito, o cineasta encontrou uma história que faz com que esses elementos façam sentido. A câmera tremida, por exemplo, dá desespero na história de dois assaltantes (Jake Gyllenhaal e Yahya Abdul-Mateen II) que sequestram uma ambulância para fugir de policiais. O veículo é a única saída da dupla.


Claro que há exageros, elementos cansativos, escolhas criativas que vão além. Há algumas piadas que não fazem sentido algum (o personagem de Gyllenhaal reclamando da sujeira em sua cashmere, a dupla cantando no meio da perseguição). Típico de Michael Bay, que parece dar uma piscadela para a audiência acostumada com seu cinema. De resto, os elementos do diretor sabem brincar com a tensão na tela e a claustrofobia é acentuada com essa direção caótica.


Eu, que sou uma pessoa que detesta o diretor, me vi entretido durante a sessão para imprensa do longa-metragem. Fiquei empolgado, dei algumas gargalhadas de vergonha alheia, fiquei tenso, suei. Gyllenhaal é o ponto alto: enquanto o excepcional Yahya Abdul-Mateen II parece se levar a sério demais, o ator de O Segredo de Brokeback Mountain traz uma loucura insana, que até faz o filme se confundir em gêneros, e faz com que a experiência seja mais interessante.


Ambulância: Um Dia de Crime, assim, é o filme que mais deve alcançar audiências por aí. Quem detesta Michael Bay pode encontrar uma pérola lá no final, uma diversão escondida em camadas de cenas desnecessárias, uma duração exagerada e a tal fotografia de videoclipe -- além de uma nova obsessão com cenas com drones. Não é excepcional, mas é bom. É um passatempo verdadeiro e honesto, digno de assistir na telona com pipoca e refrigerante ao lado.

 

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