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  • Matheus Mans

Crítica: 'Armugan' se vale de fotografia deslumbrante para falar sobre vida e morte


A cena chama a atenção. Com os dois pés no chão, um homem grande e barbudo (Gonzalo Cunill, interpretando Ánchel) caminha num cenário inóspito, com terras vazias e ovelhas rondando por ali. Nas costas de Ánchel, está o personagem-título. Armugan (Íñigo Martínez). É um homem pequeno, com algum tipo de deficiência óssea, que não consegue andar e depende da força (e das pernas) de Ánchel para se locomover por aí, nessa cidadezinha no fim do mundo.


Esse é o começo do potente, marcante e belo Armugan. Com ares de Handia, outra produção vinda da Espanha, o longa-metragem não oferece muitos detalhes logo de cara. Afinal, o diretor e roteirista Jo Sol (Fake Orgasm) vai aos poucos, saboreando o cenário e a fotografia de Daniel Vergara (Vera). Primeiramente, mostra traços da relação desses dois personagens. Depois, vai acrescentando os tons de fábula na história, misturando um drama com toques de fantasia.


É um começo lento, contemplativo. Aos poucos, porém, vamos compreendendo que Armugan é uma espécie de "doula do fim da vida". Ao invés de facilitar um nascimento, ele se torna o condutor da morte de quem está muito doente, nas últimas, mas não consegue fazer a travessia. É um curandeiro às avessas. Uma presença que nem todo mundo deseja, é claro, mas que acaba se fazendo necessária conforme pessoas em situações extremas sofrem moribundos, na cama.

O filme ganha seu verdadeiro traço filosófico, e que joga a produção lá pra cima, acontece quando uma forasteira procura o personagem-título. Ela quer que o curandeiro faça a passagem do seu filho, um menino vivendo por conta de aparelhos, mas ainda consciente. Armugan não aceita. Espécie de entidade histórica, que acompanha o desenvolvimento da sociedade como um todo, tem suas raízes fincadas em conceitos antigos. Ele não aceita, de forma alguma, o serviço.


A partir daí, numa narrativa crescente em intensidade, Armugan vai ganhando corpo, densidade. Reflexões sobre o que é vida e o que é morte vão pipocando na tela, de maneira pouca escancarada, conforme Armugan vai se confrontando com sua própria ética. O que é viver, o que é morrer? São temas densos, tratado dessa maneira fabular pelo cineasta, mas que não deixam o filme cansativo -- não é nem didático ou fantástico demais, acertando a produção sob medida.


No final, algumas coisas ficam mal desenvolvidas ou explicadas, mas a história a la Bela Tarr, até com toques de Terence Malick, deve agradar aqueles que buscam profundidade em produções que não deixam a estética e a poesia de lado. Armugan não é um filme fácil. Mas, sem dúvidas, é um dos mais originais e provocativos da 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Vai deixar muita gente estupefata com todo o requinte que se encontra nessa produção.


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