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  • Matheus Mans

Crítica: 'As Leis da Fronteira', da Netflix, é maduro e potente filme espanhol


Que surpresa mais do que agradável é As Leis da Fronteira, longa-metragem espanhol que chegou ao catálogo do serviço de streaming nesta segunda-feira, 22. Dirigido por Daniel Monzón, que também assina o roteiro ao lado de Jorge Guerricaechevarría, o filme se concentra na história de Nacho (Marcos Ruiz), um garoto que não se encaixa e não consegue encontrar paz.


Afinal, de um lado, ele sofre um bullying constante de um grupo de garotos chatíssimo. De outro, está essa tentativa dele de se compreender, de se entender, se libertar. É um sentimento complicado e que o personagem, carregado pela boa atuação de Ruiz e pelo bom roteiro, consegue passar verdade pela tela. Sentimos, nos vinte minutos iniciais, a dor latente de Nacho.


A coisa muda de rumo, e o filme ganha uma força inesperada, quando Nacho faz amizade com dois estranhos que aparecem na casa de jogos -- Tere (Begoña Vargas) e Zarco (Chechu Salgado). O aparente casal parece estar ali para arrumar confusão. Nacho entra no meio da história. Quer saber o que tá rolando. E, com isso, passa a fazer parte do bando de Tere e Zarco.


Começam com pequenos assaltos aqui e acolá. Até que a coisa não suporta mais apenas o dinheiro roubado de um lugar pequeno, de saidinha de banco. Se torna maior, maior, maior.

Monzón, que já tinha mostrado habilidade como cineasta em Cela 211 e El Niño, repete a boa performance. Tal qual Roma, de Cuarón, As Leis da Fronteira é um filme banhado de memórias e nostalgias, sendo que nem todas elas são boas. Há muito sofrimento no desenrolar do filme da Netflix, que vai surgindo a partir do momento que Nacho se encontra até demais nesse grupo.


A paixão que desperta por Tere, aparentemente comprometida com Zarco, é o tempero a mais que o filme precisava. A atuação sedutora, e ainda assim ingênua, de Begoña Vargas é um dos motores do longa-metragem. Com seu olhar apaixonante, mas um tanto quanto perdido, Tere faz não só Nacho ficar à deriva, como também o espectador. Afinal, o que vai acontecer a seguir?


A resistência de Monzón em também não se encaixar em nenhum gênero é outro ponto que merece destaque. As Leis da Fronteira pode ser visto como um romance, como um drama de época, como um filme de ação. Há sequências de perseguição bem dirigidas, assim como bons momentos de flerte entre Nacho e Tere. Tudo é bem dosado, fazendo o filme ter personalidade.


Há alguns erros de edição bem aparentes, como personagens que fazem o mesmo movimento duas vezes quando o corte seco surge na tela ou, então, a perseguição que é emocionante, mas não consegue situar o espectador dentro da narrativa. Ainda assim, a força do roteiro -- inspirado em um livro de Javier Cercas, do recente Terra Alta -- faz o filme manter o interesse.


No final, a nostalgia que nasce com o personagem de Nacho se transfere para o espectador. Nostalgia pelo que vivemos e o que deixamos passar. Pelos romances de verão que ficaram em nosso coração. Pelas amizades, certas ou erradas, que fizemos. As Leis da Fronteira é um filme que não se define. Vai além. E esse sensação de liberdade, cá entre nós, é muito boa.


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