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  • Matheus Mans

Crítica: 'Belfast' não é filmaço, mas traz verdade e sentimento


É natural, quando um filme é indicado ao Oscar, que seja criada uma expectativa em torno daquela produção. Um nota 8, no mínimo. Em alguns casos, isso pode ser fatal -- o filme pode não ser o bastante para o Oscar, mas seria elogiado à beça em uma situação normal. É o caso de Belfast, longa-metragem semiautobiográfico de Kenneth Branagh que chega aos cinemas na quinta-feira, 5, e que foi indicado em oito categorias, incluindo melhor direção e melhor filme.


Na trama, acompanhamos a história de Buddy (Jude Hill), um garotinho que vive sua vida pacata na Irlanda do Norte. No entanto, tudo muda quando criminosos começam a ameaçar a vida e a segurança de católicos no País. Buddy, assim como toda sua família, é protestante. Mas vive aquele horror e aquele mesmo de uma maneira muito semelhante, já que sua vizinhança vive em clima de guerra e amigos, que antes brincavam com ele no quintal, agora fogem com medo.


É algo bem semelhante ao que Taika Waititi fez em Jojo Rabbit: pega um fato histórico e coloca sob o prisma de uma criança. Aqui, porém, ainda há algo de Roma na história, quando Branagh admite que há muito de sua infância, de sua família, de suas experiências. Assim, há muita verdade na história de Belfast, muito sentimento, muita emoção. O cineasta sabia, de antemão, muito bem o que sua história queria e deveria contar, enaltecendo os pontos exatos da trama.


Mas, como diz o ditado, nem tudo são flores. Como dito, Belfast entra na sina dos filmes indicados ao Oscar de que há a obrigação, mais do que dever, de entrarem na categoria de filmaços. E o longa de Branagh não é um. Belfast é competente e, acima de tudo, conta com boas atuações -- além do pequeno Jude Hill, revelação absoluta, há boas atuações dos pais do garoto (Jamie Dornan e Caitriona Balfe) e, principalmente, dos avós (Judi Dench e Ciarán Hinds).


No entanto, a trama é simples demais. Simplista até. Afinal, quando coloca essa história trágica sob o prisma de uma criança, há dois movimentos. Primeiramente, torna tudo ainda mais brutal já que a criança simplesmente não entende o motivo daquilo estar acontecendo. Tudo se torna incoerente, vil, tosco. Por outro, porém, parece que tudo é muito simples, sem rodeios ou complicações. Belfast, assim como Jojo Rabbit, diminui a importância histórica de uma tragédia.


Por fim, há de se pensar se uma criança protestante deveria ser o protagonista de uma história em que as verdadeiras vítimas são os católicos. De novo, voltemos à Jojo: é um problema semelhante, ainda que não tão grave, de colocar Hitler como o amiguinho imaginário do protagonista. Simplificação exagerada de um fato histórico tráfico que, sob essa prima, entra no universo lúdico e infantil. Tragédias, de hoje e de ontem, não pode ser diminuídas, simplificadas.


E é por isso que Belfast não é filmaço. É um filme competente, mas com ressalvas, que diz muito mais sobre o diretor e sua história do que qualquer outra coisa -- um pouco, também, do que fez Paul Thomas Anderson em Licorice Pizza. Cá entre nós, fica a minha aposta: chance alguma de ganhar o Oscar de melhor filme, quiçá o de roteiro. Em um ano de Ataque dos Cães, Belfast é pequeno demais, enxuto demais, ainda que bonitinho para gostarmos no fundo do coração.

 

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