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  • Matheus Mans

Crítica: 'Bergman Island' é drama sobre a vida influenciando o cinema — e vice-versa


Confesso que fui assistir ao aguardado e comentado Bergman Island com um pé atrás. Afinal, colocar um nome como o cineasta Ingmar Bergman no título é coisa para poucos e, querendo ou não, já começa o filme mostrando alguma pretensão. No entanto, que grata surpresa: apesar desse probleminha inicial, fruto apenas de pré-conceitos, o longa-metragem é um ótimo acerto.


Dirigido pela talentosa Mia Hansen-Løve (de O Que Está Por Vir), o longa-metragem conta a história de um casal de cineastas (Vicky Krieps e Tim Roth) que vai para a ilha de Faro, onde Bergman morava, para encontrar um pouco de paz e inspiração. A ideia dos dois é sair de lá com algumas ideias de roteiro para que possam, nos anos seguintes, comandar novos filmes.


No entanto, enquanto estão lá em ambientações de filmes como Cenas de um Casamento, mais coisas vão nascendo, surgindo, se transformando seja no relacionamento dos dois, seja na forma de encarar a vida, o trabalho, o cinema. Com trabalho de ponta de Krieps e de Roth, que conseguem interpretar essa energia vital em transformação, embarcamos facilmente na trama.

O mais interessante de Bergman Island, porém, está na forma metalinguística que Hansen-Løve aborda a relação de Chris e Tony com o cinema. Aqui, o principal foco do longa-metragem é identificar, desenvolver e se aprofundar na forma que o cinema influencia as nossas vidas e vice-versa. Vicky é influenciada por Bergman. Depois, seu cinema influencia terceiros. Por aí vai.


E afinal, como Bergman Island em si não está nos influenciando, como meros espectadores dessa obra? É uma discussão interessante, que surge de forma inteligente no roteiro de Mia.


É interessante, também, a quebra narrativa de quando começamos a acompanhar, em imagens, como um "filme dentro do filme", a ideia de longa-metragem da personagem de Krieps. Há a entrada de Mia Wasikowska na produção e, com isso, Bergman Island ganha escala. Por meio da história contada, entendemos mais de Chris. É, afinal, uma forma de desenvolver a personagem.


No final, sobram apenas algumas sensações de coisas que poderiam ter sido mais bem exploradas — como o próprio personagem de Tim Roth, que acaba desencontrado no final — e mais desenvolvidas. Ainda assim, Bergman Island talvez seja o filme que melhor mostra como o cinema é mais do que imagens em movimento. É arte, é vida, é história. É a gente.


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