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  • João Pedro Yazaki

Crítica: 'Cry Macho: O Caminho para Redenção' é a despedida digna de Clint Eastwood do cinema


Estamos vivenciando o final da carreira, e infelizmente da vida, de um dos nomes mais marcantes do cinema e do gênero faroeste. Clint Eastwood atuou em cerca de 70 filmes e séries, dirigiu mais de 40 e até mesmo compôs a trilha sonora de algumas produções. Desde os clássicos Três Homens em Conflito e Os Imperdoáveis, até os mais recentes Gran Torino e Menina de Ouro, sua trajetória é de tirar o chapéu. Fica até impossível citar todas as suas obras de sucesso.


Indo além dos "spaghetti western", Clint Eastwood entregou longas-metragens diversos, mesmo quando eram de gêneros semelhantes. Cada filme possui suas particularidades que os fazem únicos. Sua atuação por si só nunca foi das mais geniais, ainda assim conseguiu performar com exatidão, sempre de acordo com o que o personagem e o enredo precisavam.


Perto dos 90 anos, o ator, diretor e roteirista estava pensando na melhor forma de se aposentar. Em 2018, lançou A Mula, e em 2019, O Caso Richard Jewell, mas não ficou contente em parar por ali. Ele precisava de algo para dar o tom de despedida que tanto merece, e nada melhor do que voltar às origens. Por isso, cá estamos em 2021 com Cry Macho: O Caminho para Redenção. O novo faroeste explora o lado mais introspectivo de Clint Eastwood, chamando o público para caminhar com ele no que pode ser o seu último filme.


O enredo é bastante simples: o protagonista Mike Milo, estrela do rodeio e criador de cavalos, aceita um trabalho de trazer o filho de um ex-chefe de volta para a casa. O adolescente de 13 anos, Rafo (Eduardo Minett), mora nas ruas de uma pequena cidade na fronteira do México com os EUA, pois se recusa a morar com a mãe abusiva. Enquanto são perseguidos pela polícia em direção a fronteira, o velho cowboy terá que conviver com o jovem menino e aprender que ainda é possível encontrar um propósito.


Ao contrário do que se imagina em uma narrativa como essa, Cry Macho não é uma aventura espetacular. É exatamente o oposto. O filme retrata a jornada intimista do herói perdido tentando encontrar o seu lugar. Embora a vida de Mike tenha lhe providenciado conquistas, ela também lhe tirou tudo. Portanto, Mike é um homem amargurado e vazio, sem motivações. Porém, sua vida vira de cabeça para baixo quando conhece Rafo. Juntos, irão compartilhar uma viagem marcada por desconstruções e reconstruções. Mike e Rafo possuem uma química contagiante, formando a clássica parceria entre o velho e o novo.

A premissa em si é batida. Já vimos essa mesma estrutura em outras histórias. Inclusive, essa aqui não possui reviravoltas, tampouco momentos mais intensos. Por isso, talvez alguns possam se decepcionar, pois não irão encontrar um faroeste de ação. No entanto, esse é o grande diferencial de Cry Macho. Ao invés de retratar um tema da mesma forma manjada de sempre, o filme foca no desenvolvimento dos protagonistas com muita sensibilidade, principalmente no personagem de Clint Eastwood.


Enquanto em outras obras o ator quase não esboça um sorriso sequer de tão carrancudo, aqui vemos essa caracterização evoluir para algo mais leve. Apesar da idade, o ator está enérgico, entregando as falas com a maior vontade do mundo como se realmente fosse o último filme da vida. Essa leveza é transmitida para o personagem. Mike vai se soltando na medida em que a história avança, passando a olhar para a vida com um pouco mais de positividade.


No entanto, por mais que a história seja bem concisa, ela comete alguns tropeços no caminho. No início, por exemplo, vemos apenas uns flashes da vida passada de Mike, sem tanta profundidade. Até o espectador se apegar de vez ao protagonista, pode demorar um pouco. Além disso, embora essa narrativa não precisasse de um terceiro ato explosivo, o final foi um tanto abrupto. Deu a impressão de ser pouco conclusivo e até deixa um gostinho de quero mais.


Porém, mesmo com esses acidentes de percurso, o longa funciona perfeitamente bem. O foco na jornada introspectiva de Mike, prezando pela simplicidade, fazem do personagem um dos mais maduros de Clint Eastwood. Além de desempenhar uma ótima performance, o ator entrega uma direção objetiva, acompanhada de uma trilha sonora estonteante de Mark Mancina.


Portanto, a beleza de Cry Macho se encontra exatamente nessa pegada sensível em um gênero que, a cada ano, precisa fazer algo mirabolante para se reinventar. Clint Eastwood decidiu seguir o caminho contrário e se dedicou em entregar a história de alguém que só quer encontrar paz interior, mas para isso terá que abraçar o novo. É difícil de prever se iremos assistir mais algum filme do ator, mas Cry Macho: O Caminho para Redenção é uma despedida digna.


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