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  • Matheus Mans

Crítica: 'DAU. Natasha' é bom filme experimental sobre URSS


Que projeto único, complexo e inacreditável é DAU, do diretor Ilya Khrzhanovskiy. Nasceu com a ideia de realizar um filme inspirado no trabalho do físico Lev Landau, um dos principais cientistas soviéticos. Logo, porém, a coisa evoluiu e criou-se um projeto multidisciplinar que envolve cinema, arte, performance, ciência e experimento social. Tudo junto e misturado.


Para isso, Khrzhanovskiy construiu uma réplica em tamanho real do instituo soviético de tecnologia. Lá ficaram morando, ao longo de dois anos, atores, cientistas, militares e pessoas comuns, sempre com o propósito de reconstruir a década de 1950 na União Soviética. Agora, os primeiros filmes desse projeto -- que também teve uma instalação -- veem a luz do dia.


DAU. Natasha é o primeiro a ser exibido na 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que também vai colocar para apreciação DAU. Degeneração. Neste primeiro filme, acompanhamos a história da personagem-título, atendente da lanchonete desse tal instituto de ciência e tecnologia. Ela leva sua vida aos trancos e barrancos, entre trabalho, sexo e bebedeira.

Aqui, ao longo de quase 2h20, somos convidados e mergulhar na vida dessa mulher sem qualquer pudor, filtro ou proteção. Entendemos a dor de seu cotidiano, a falta de esperança em sua rotina, o vazio de seus encontros amorosos. E para isso tudo, Khrzhanovskiy provoca. Coloca cenas de sexo explícito, a bebedeira parece ser real e a violência não é deixada de lado.


Dessa forma, por mais que a provocação e a perturbação parecem gratuitas em alguns momentos, faz sentido. Afinal, conseguimos mergulhar ainda mais no existencialismo dessa personagem tão à beira da vida, num ambiente em que a incerteza de uma vida nos cercam o tempo todo. Se não fosse por esse cinema extremo, talvez não mergulhássemos tão fundo.


Muitas pessoas também reclamam de uma possível falta de conteúdo. No entanto, é preciso notar que DAU. Natasha também fala conosco por meio do vazio, do silêncio, do não dito.


O único porém fica para a instabilidade da trama, que não se sustenta por suas quase 2h20. Há momentos que ficam abaixo da narrativa e com possibilidades evidentes de cortes -- uma cena de bebedeira, lá pela metade, deixa isso claro. Mas tudo bem. É um filme experimental, que não deve agradar poucos. Mas com potencial desse projeto ser histórico para os cinemas.

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