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  • Foto do escritorMatheus Mans

Crítica: 'Decisão de Partir' é testamento cinematográfico de Park Chan-wook


Quando sentamos na poltrona do cinema para assistir a um filme de Park Chan-wook, nunca sabemos o que vamos encontrar. Tudo é possível: as reviravoltas recheadas de violência de Oldboy, o erotismo incômodo de A Criada, a bizarrice de Segredos de Sangue. No entanto, em Decisão de Partir, estreia desta quinta, 5, o coreano mostra como ele sabe brincar de cinema.


De um lado, o filme policial. Na trama, um detetive eficiente e meticuloso investiga um possível assassinato em um remoto vilarejo de montanha. Existem, aqui, todos os elementos mais básicos e essenciais de um thriller de investigação: as dores pessoais do investigador, que vive uma vida em conjunto sem muita emoção; o parceiro que parece saído de uma revistinha antiga de cinema policial; um crime instigante; e, é claro, a viúva suspeita -- como já é clichê no gênero.


É ela, aliás, que liga o detetive Jang Hae-joon (Park Hae-il) ao outro hemisfério da narrativa. Song Seo-rae (Tang Wei) é uma mulher que cativa. Está em sofrimento pela morte inesperada do marido, mas também dá indicativos de que a partida do cônjuge pode ter sido um alívio. A partir disso, é interessante se deixar levar pelo roteiro de Chan-wook, e escrito em parceria com Chung Seo-kyung (de A Criada), que vai seguindo como uma cobra: silencioso e em ondas.


Decisão de Partir brinca, o tempo todo, com a acepção de seu gênero. Se o filme fosse colocado na frente de um espelho, como se veria? Um filme policial com tons românticos? Um romance com tons policiais? Chan-wook brinca com o espectador, que nunca sabe ao certo o que está assistindo. Os estilos de história se misturam, se esbarram, parecem não encontrar uma saída.

Obviamente, isso não é fruto de qualquer erro de direção como acontece aos montes por aí — pelo contrário. Chan-wook abraça signos de cada um desses gêneros e brinca com eles sem medo de ser feliz. Quando acontece a primeira quebra na narrativa, exatamente no meio, fica até a sensação de que o cineasta vai seguir pelo caminho simples, no drama. Mas isso não acontece.


Decisão de Partir, em sua segunda metade, engrandece tudo que estava acontecendo até então. O romance fica ainda mais intenso, a confusão dos personagens se adianta. Jang Hae-joon age como o espectador tentando decifrar a narrativa: confuso, andando de um lado para o outro, tentando compreender se está manipulando ou sendo manipulado. Lembra até mesmo Trama Fantasma, quando começa a mostrar sinais de uma dependência tóxica entre os personagens.


Arrisco dizer que este filme é o que as pessoas mais podem esperar da direção do sul-coreano — não à toa, levou o prêmio da categoria no Festival de Cannes. É maduro, consciente de suas escolhas e intempestivo, apesar de silencioso. Chan-wook por vezes parece abraçar exageradamente o cinema comercial, que entrou em sua vida desde o polêmico ‘Segredos de Sangue’. Mas, aos poucos, se afasta disso e Decisão de Partir até questiona Chan-wook.


O final trágico, sem qualquer relance de beleza ou até mesmo se alívio, mostra que o diretor continua sendo consciente de seus atos. Abraça, o noir, Hitchcock, as femme fatales, até mesmo a dramédia. E, no final das contas, exibe que nada disso basta para vencer a tragédia. Quando a assepsia é exagerada, é melhor se segurar: no final, algo vai explodir e deixar tudo mais sujo.


O filme tem lá os seus problemas, como a duração exagerada, repetições e alguns personagens que sobram — o colega policial, por exemplo, não tem razão de ser. Mas tudo bem: o cineasta, aparentemente incomodado com alguns caminhos do cinema, mostra que a tragédia não tem escapatório. O sentimento está sempre lá. Pode tentar esconder, soterrar com configurações de gêneros ou tramas singelas. A força de boas histórias, porém, sempre há de emergir.

 

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