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  • Matheus Mans

Crítica: 'Deserto Particular' é sensibilidade em forma de cinema


De um lado, Daniel (Antonio Saboia). Policial de Curitiba, está afastado de suas funções por conta de algum ato contra o juramento da profissão. Talvez mais um caso de violência policial? Do outro, Sara (Pedro Fasanaro), uma mulher transexual no interior do Brasil, que precisa esconder sua verdadeira orientação sexual. Os dois, mesmos distantes e de realidades bem distintas, acabam se encontrando na internet. É paixão certeira, iniciando uma tórrida conversa digital.


Esse é o ponto de partida de Deserto Particular, novo longa-metragem de Aly Muritiba, cineasta que foge completamente do que já foi visto em seus filmes, como Ferrugem e Nóis por Nóis. Depois desse começo, o roteiro assinado pelo próprio Muritiba e por Henrique Dos Santos passa a nos dar pistas da vida de cada um -- começando por Daniel. Sua vida está em suspensão. Afinal, não pode trabalhar, vive em função do pai doente e não consegue ter uma vida como quer.


Sara, que também é chamada de Robson no filme, começa a ser desenvolvida pelo roteiro lá pela metade, quando Deserto Particular mostra sua personalidade: depois de acompanharmos continuadamente a visão de Daniel, passamos a mergulhar na história de Sara. Com atuação marcante de Fasanaro, estreante em longas, vamos conhecendo melhor sua rotina: a amizade com um homem gay da cidade, a relação com a avó, a religião opressora, o desejo reprimido.

São duas histórias bem diferentes que, quando se cruzam, ganham todo aquele corpo de filme LGBTQIA+ que sempre vemos por aí (e este é, justamente, a principal inflexão do longa-metragem). Muritiba vomita na tela, a todo momento, histórias, personagens e narrativas que já se esgotaram de tão exploradas que já foram. O que diferencia, aqui, são as atuações e, principalmente, o contexto do Brasil interiorano dentro dessas discussões sobre sexualidade.


O que diferencia completamente Deserto Particular de qualquer outra produção do gênero é seu final. Sem spoilers: Aly Muritiba encontra espaço, finalmente, para sair desses clichês sufocantes do gênero e trazer uma voz muito própria, sensível e delicada para o longa-metragem. A tragédia pela tragédia, como vimos recentemente em Verão de 85, para termos um exemplo fresco, é deixada de lado. E a rasgante voz de Bonnie Tyler desenha bem esse final.


O longa-metragem de Aly Muritiba certamente poderia ser melhor. Poderia ter escapado mais de clichês, de armadilhas de histórias sobre pessoas LGBTQIA+, e encontrado uma voz mais própria em seu desenvolvimento. Mas as atuações, a força e a sensibilidade unidas em torno da narrativa e, principalmente, a forma como o filme termina elevam a qualidade da produção. Não é o melhor longa brasileiro do ano (7 Prisioneiros continua no trono), mas chega bem perto.


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