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  • Matheus Mans

Crítica: 'Diários de Mianmar' traz imagens importantes, mas pouco cinema


Cinema de resistência. Essa expressão, às vezes usada ao vazio, trata de um dos universos (e estilos de cinema) mais importantes da sétima arte, se é que podemos elencar filmes em um grau de importância. É aquele cinema que resiste a algo. Que coloca a arte em um espaço que vai além da admiração e reflexão, partindo para a acusação, para a denúncia e, como o próprio nome diz, para a resistência. E é justamente nesse espaço que Diários de Mianmar busca entrar.


Dirigido por um coletivo anônimo de cineastas do país asiático, este filme fala sobre o que aconteceu no país após o golpe militar que subiu ao poder -- e que, curiosamente, foi televisionado enquanto uma mulher fazia ginástica em frente à um monumento histórico. A ideia central de Diários de Mianmar é mostrar o que está acontecendo por lá, em um momento em que a liberdade de expressão é censurada e informações locais são vetadas pelos militares.

Por um lado, há uma potência que só o cinema consegue ter ao vermos as imagens. Sabemos que parte da população está resistindo, protestando, colocando sua voz. Há muita violência, pessoas presas, repressão. A denúncia é contundente, mesmo quando não fica tão claro o que está acontecendo nas ruas birmanesas. Há urgência no relato, até mesmo certo desespero. Há coragem também, certeira e absoluta, que mostra como é importante colocar Mianmar à luz.


No entanto, a importância de Diários de Mianmar parece que fica por aí. O coletivo de cineastas definitivamente não conseguiu dar a roupagem de cinema que o longa-metragem exigia. Tudo visto ali é um pouco corrido demais, apressado. Muitas coisas não se conectam e, ainda que uma imagem valha mais do que mil palavras, faltam informações. Tudo é muito vago, aproximado. Obviamente há a dificuldade dos cineastas, mas poderia ter mais conteúdo.


A sensação é de que Diários de Mianmar poderia ser mais jornalismo de resistência do que um cinema de resistência de fato. Falta um roteiro que junte tudo em um pacote, faça a coisa andar. Falta cinema e sobra resistência. Se a coisa tivesse uma linguagem mais clara, até mesmo uma narrativa mais forte, mais potente, Diários de Mianmar seria irresistível. Seria Oscar na certa. Mas, do jeito que ficou, uma pena: sinto que vai passar invisível nos cinemas pelo mundo.


* Filme assistido durante a cobertura especial para o festival É Tudo Verdade 2022.

 

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