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  • Matheus Mans

Crítica: 'Drive My Car' é filme lento e contemplativo sobre perdas e recomeços


O prólogo de Drive My Car tem 40 minutos. Esse é o tempo até os primeiros créditos aparecerem na tela, quando já até esquecemos que o nome dos atores e realizadores não deram as caras por ali. E isso não poderia ser mais acertado. Primeiramente, o cineasta Ryûsuke Hamaguchi (do ótimo Roda do Destino) mostra o compasso do longa-metragem: é lento, contemplativo e não está nem um pouco preocupado em ser ágil para agradar o público sedento por ação na tela.


Além disso, o prólogo não é um blá-blá-blá desnecessário. Nada disso. Tudo que acontece nesses 40 minutos é absolutamente essencial para se criar uma base do que vai ser contado. Yusuke Kafuku (Hidetoshi Nishijima) é um ator e diretor de sucesso no teatro, casado com Oto (Reika Kirishima), uma roteirista que guarda segredos -- em seus sentimentos, em sua vida, em sua rotina. É dessa relação dos dois, e a partir do luto de um deles, que nasce Drive My Car.


É no prólogo também que o título faz sentido e mostra como a direção é algo importante para o protagonista. Quando entrega o comando de seu carro para a jovem choffer Misaki Watari (Toko Miura), depois do prólogo, Hamaguchi mostra muito do sentimento e da emoção do personagem. Ele se entrega, mas recua. O prólogo, assim, funciona como um ponto de referência. Vemos o antes e o depois do acontecimento que fecha essa parte inicial e que transforma Yusuke.


O desenvolvimento emocional do protagonista, muito atrelado ao que vimos no prólogo e ao que é mostrado em seu relacionamento extrapessoal quando vai comandar uma peça de teatro fora da cidade em que mora, é o ponto-chave de Drive My Car. As emoções contidas dominam o silêncio. A forma que trata Misaki revela os traumas, enquanto as concessões (e os receios do que essas concessões podem causar) vão trazendo outras angústias, medos, desesperos.

Hamaguchi, fazendo coro ao cinema japonês, nunca coloca emoção demais na tela, nunca exagera na dose. Tudo é contido e contado, até os mínimos detalhes, para que o silêncio, os gestos e as metáforas falem mais do que diálogos diretos. Aliás, as metáforas! Hamaguchi põe Tio Vânia no meio da história como uma tacada de mestre: a peça de Tchekhov diz muito sobre o que está passando Yusuke e, quando ele diz diálogos, está falando do que sente e não verbaliza.


O calcanhar de Aquiles na trama está na duração. Três horas. Já disse aqui outras vezes e repito: filme algum precisa ter tanto tempo. Até entendo Lav Diaz ou Béla Tarr com seu Satantango, que criam mais experiências do que filmes -- mas, novamente, tenho lá minhas restrições. Só que um filme como esse, com suas três horas, não dá: há vazios e poderia ter 20 ou 30 minutos a menos. Batman não me convenceu, Hamaguchi continua sem me convencer de tanta duração.


Mas tudo bem. Passado isso, Drive My Car tem muito a oferecer. É um filme sobre luto, mas também sobre redenção. Fala sobre pessoas perdidas e pessoas que se descobrem no vazio uma das outras. Fala sobre se perder em si próprio. E duas cenas específicas, uma conversa com Misaki e uma cena de encerramento da peça de teatro, são poderosíssimas: tudo que tinha sido represado de emoção até então, é libertado em um jorro de potência, força, destruição.


Afinal, é preciso destruir para reconstruir. Se perder para se reencontrar. E Hamaguchi sabe como conduzir isso, aliado ainda com bela fotografia e trilha sonora, mostrando o que há de mais terno, sensível e complexo em um ser humano. Drive My Car não é meu filme preferido da temporada (que continua com A Tragédia de Macbeth), mas sem dúvidas é um dos mais ousados, belos e emocionais do ano. Vale vencer suas exageradas três horas e achar a emoção.

 

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