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  • Matheus Mans

Crítica: 'Dude: A Vida é Assim' é banal, mas com boa abordagem


Dude: A Vida é Assim, inicialmente, parece uma espécia de As Patricinhas de Beverly Hills misturado com Meninas Malvadas. Afinal, este longa-metragem comandado por Olivia Milch (roteirista do ainda inédito Oito Mulheres e um Segredo) acompanha a rotina de quatro amigas num colégio norte-americano. Elas fumam maconha, pegam garotos, sonham com professores.

O grupo é liderado pela controladora Lily (Lucy Hale), que adora mandar em tudo e não deixar que os outros a ajudem. O quarteto ainda é composto pela melancólica Chloe (Kathryn Prescott) e pelas divertidas Amelia (Alexandra Shipp) e Rebecca (Awkwafina).

No entanto, o filme até que surpreende em sua abordagem. Milch não se contenta em mostrar a rotina das meninas de forma estereotipada, como nos filmes citados no início do texto. Ela vai além e trata de assuntos pouco tratados em filmes do gênero, como luto, uso de absorventes, perda de identidade, masturbação feminina e estupro -- este vamos falar mais daqui a pouco.

Ainda que alguns dos assuntos surjam de forma surrada num roteiro essencialmente pobre, eles ajudam a dar dinamicidade à trama e atualizá-la frente à uma sociedade moderna que precisa se abrir com tais temas e deixá-los de tratar como tabu. Até a questão dos relacionamentos contém um toque de liquidez, deixando-os mais fluídos em tela e um tanto quanto mais verídicos.

Lucy Hale (Pretty Little Liars), mesmo com quase trinta anos, se sai bem no seu papel e não deixa que o filme afunde em alguns momentos. Assim, pode-se dizer que ela leva o filme nas costas, já que Alexandra Shipp (Com Amor, Simon) e Kathryn Prescott (O Mínimo para Viver) estão extremamente artificiais -- esta última, aliás, estraga um dos plots da trama completamente. Awkwafina (Vizinhos 2) diverte, mas não sai muito disso. O resto do elenco é operante.

Esses temas tabus, tratados de forma natural, porém, acabam perdendo força por conta do roteiro, que se deixa levar por uma série de clichês do gênero. As inovações temáticas, então, vão por água abaixo quando Milch decide inserir um fraco drama entre as quatro amigas e tratar algumas coisas de maneira superficial. A tal questão do estupro, por exemplo, poderia elevar a qualidade do filme e seu poder de debate. Mas acaba sendo relegada ao esquecimento.

A questão das drogas, que é muito marcante dentro da narrativa, também não é explorada. Claro, o filme já fala de muitos assuntos delicados, como já citado. Mas se o roteiro insiste tanto em abordar o consumo de maconha e derivados por jovens, também deveria mostrar um outro lado. Falhou nisso.

Dude: A Vida é Assim também não conta com nenhum aspecto técnico que chame a atenção ou deixe sua marca. A trilha sonora é quase inexistente -- sendo que, num filme assim, deveria ser mais marcante -- e não existe grandes momentos de direção. É tudo feito de maneira normal e sem sustos.

Ainda assim, é um filme que surpreende em certa medida. É corajoso ao deixar meninas do colegial reais, como é pouco visto no cinema, e ao tratar de assuntos delicados na sétima arte. Pena, porém, que as convenções não permitam que a história vá além e transforme o longa em algo memorável. Teria potencial.