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  • Matheus Mans

Crítica: Em 'Nona', ficção e documentário se fundem e entram em conflito


A cineasta chilena Camila José Donoso ficou em evidência em 2013 com o excelente Naomi Campbel, filme que acompanha a trajetória de uma transexual. Assim como o "novo cinema brasileiro", que tem títulos como Arábia, Sócrates e Era o Hotel Cambridge, as barreiras entre ficção e documentário são borradas. Difíceis de distinguir. É um estilo de cinema que brinca com a forma e o conteúdo, provocando o espectador. Agora, a diretora radicaliza com Nona.


Terceiro longa-metragem de Camila José Donoso, este filme acompanha a jornada de Josefina Ramirez, avó da cineasta que fez parte da resistência anti-Pinochet e se tornou uma especialista na produção de molotovs. Agora, ela já é idosa e, na narrativa, a fantasia da ficção se mistura de maneira forte e radical com o tom de documentário. Ao contrário de Naomi Campbel, em que esse limite é trabalhado com delicadeza, as coisas aqui são mais claras. Ficção é ficção.


Talvez pelo cuidado que Donoso tenha com a imagem de sua avó, há mais atenção na forma que tudo é retratado, contado, desenvolvido. Percebe-se com facilidade que a protagonista-entrevistada realmente entende de coquetéis molotov, assim como deixa sua aura política ir além. A força política da protagonista existe. Resiste. Enquanto isso, a cineasta também brinca com o tom ficcional de maneira experimental, interiorizando os diferentes tons sociais da avó.

Para incrementar a narrativa, e não deixá-la apenas em um relato sobre sua história, a cineasta coloca sua avó como uma fugitiva. Uma mulher que, após cometer um crime na capital chilena, vai se exilar em um povoado costeiro. Lá, sua vida muda. Ela não gosta da região, não se adapta. Na tela, assim, vemos embates. Documentário versus ficção. Realidade versus imaginação. Narrativa versus vida. E, claro, a vida na cidade grande da protagonista versus o novo momento.


Infelizmente, não é tudo que funciona nessa incursão de Donoso às barreiras mais fortificadas entre ficção e documentário. O experimental da narrativa, muitas vezes, afasta o público da conversa que é travada imageticamente entre neta e avó. Quase que nos sentimos intrusos em uma conversa pessoal que foi levada aos cinemas e parece que propositadamente não pode ser entendida por todos nós. É legal ver Josefina dominando a arte dos molotovs. Mas só isso?


A narrativa ficcional, principalmente, não entusiasma. A participação do brasileiro Eduardo Moscovis fica apenas no panteão das boas ideias, sem se mostrar eficaz. Ao contrário dos também já citados aqui Arábia e Para Onde Voam as Feiticeiras, por exemplo, essa mistura entre ficção e o documentário parece não fazer o sentido cinematográfico que era esperado. O roteiro se torna uma confusão. É difícil penetrar nos desejos da cineasta. Nona é um filme para poucos.


E quando digo poucos, não é apenas aqueles que gostam de cinema experimental ou de roteiro menos coeso. Nada disso. Talvez que entenda mais sobre isso seja a própria família de Donoso. Até o aspecto político da coisa, que chega com uma força um pouco mais proeminente nos quinze primeiros minutos, se perde. Teria sido tão mais interessante e saboroso se fosse mais forte, mais direto. Seria mais rico. Uma pena. Quer novo cinema chileno? Vá ver Naomi Campbel.

#Crítica #Cinema #Filme #Drama

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