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  • Matheus Mans

Crítica: Estiloso, documentário sobre Mussum peca na profundidade


Mussum é um caso raro. Em vida, foi celebrado como um grande sambista e humorista, sendo amado por ambas as profissões -- principalmente por esta último, n'Os Trapalhões, que o alçou ao completo estrelato. Foi também um pai de família presente, apesar de ter tido cada um de seus filhos com mulheres diferentes. Foi um homem que ria da cor de sua pele, mas não como deboche. Era uma provocação, uma reafirmação de sua etnia. Um homem corajoso, à frente de seu tempo, e que foi imortalizado após a morte ao se tornar ícone da cultura pop. Vinte e cinco após sua morte, Mussum resiste.

Para relembrá-lo, e celebra-lo, a talentosa cineasta Susanna Lira (Torre das Donzelas) lançou nesta quarta-feira, 4, o documentário Mussum, Um Filme do Cacildis. Integrante do Projeta às 7, da Cinemark, o longa-metragem reexamina a vida de Mussum sobre todas as possibilidades de observação. Ele, afinal, era um personagem complexo, cheio de camadas, possibilidades, meandros, acontecimentos, cheio de vida. Não dá para falar sobre ele apenas pela ótica de Os Trapalhões, dos Originais do Samba. Ele era tudo isso.

Assim, Susanna começa tomando uma decisão interessante. Ainda que o filme mantenha a clássica estrutura de entrevistas mescladas com imagens de arquivo, tudo é altamente estilizado. As entrevistas passam em antigas TVs, filmadas em ambientes oitentistas. Todas imagens passam por um filtro para fazer com que Mussum ganhe um ar nostálgico interessantíssimo. Isso não muda o fato do filme ser inteiro baseado em uma fórmula básica, mas ajuda a camuflar e a entrar no ritmo do que é contado.

As entrevistas, agora falando sobre o conteúdo, também são interessantes. Fugindo de algumas obviedades, a cineasta fala com diretores de cinema, amigos de infância e, claro, antigos parceiros de trabalho de Mussum -- em evidência, Renato Aragão e Dedé. Não há um exagero de entrevistas, coisa comum no cinema documental nacional e que tem causado certo desconforto. Os depoimentos são dosados, quase sempre necessários, e ajudando a compor um quadro maior. Destaque para o depoimento de uma das filhas, que relata a reação de Mussum quando ela menstruou pela 1ª vez.

No entanto, nada disso é o bastante para mascarar um problema grave: falta de profundidade. O documentário, que tem apenas 71 minutos, peca ao não ir além, ao ficar na superfície. Claro: é louvável que seja feito essa diferenciação dos olhares sobre Mussum. Mas tudo acaba muito rápido. Polêmicas não são desbravadas, histórias são contadas pela metade. A sensação que fica é a de que Mussum, Um Filme do Cacildis não te conta tudo que seria esperado num filme sobre essa figura tão querida.

A conclusão, por exemplo, é corrida. Muitas coisas ficam de fora. Fica uma sensação estranha. Afinal, o filme poderia, tranquilamente, ter 20 minutos a mais e encerrar com um pouquinho mais de 90 minutos. Ninguém iria reclamar, o tempo ia passar voando e o documentário seria muito mais completo. Dessa maneira que está, há pontos positivos -- o estilo, as entrevistas, o modo de filmagem. Mas parece mais um aperitivo do que um filme, de fato, sobre o Trapalhão. Melhor, por enquanto, ler a biografia sobre ele.