• Matheus Mans

Crítica: 'Godzilla II: Rei dos Monstros' parece produção de Michael Bay


Godzilla é um monstro que já faz parte do imaginário popular há décadas. Seu sucesso começou no Japão, lá pelos idos dos anos 1950, em filmes televisivos e que, posteriormente, ganharam as telas dos cinemas. Depois, acabou caindo nas graças de Hollywood, mas sem muito sucesso. O lagarto gigante, titã de tempos passados, deixou seus anos dourados no oriente. Desde 2014, porém, a Warner Bros. tenta emplacar uma nova franquia com os monstros gigantes. Começou no mediano Godzilla, em 2014, foi para o bom Kong, em 2017, e agora desemboca no fraco Godzilla II: Rei dos Monstros.

Dirigido por Michael Dougherty, do divertidíssimo Krampus, o novo filme do rei dos monstros continua a tecer uma trama de universos compartilhados de criaturas de proporções dantescas. Dessa vez, o foco volta a ser em Godzilla, que está se tornando apenas uma peça no xadrez. Afinal, um ecoterrorista (Charles Dance) começa a despertar dezenas de criaturas a partir de um artefato criado por Emma Russell (Vera Farmiga). Para deter (e entender) essa situação, entram em cena Mark (Kyle Chandler), Madison (Millie Brown), Serizawa (Ken Watanabe) e Vivienne Graham (Sally Hawking).

A trama, escrita a quatro mãos por Dougherty e Zach Shields (também de Krampus), se complica sem necessidade. Primeiro erro fatal: há muito cacique para pouco índio. Grandes atores dividem a tela, ao longo das mais de duas horas de projeção, enquanto os monstros -- as verdadeiras grandes estrelas dessa produção -- voltam para um papel de coadjuvantes de luxo. Godzilla trava uma luta rápida no começo contra o seu maior vilão, a hidra de três cabeças King Ghidorah, e depois desaparece no oceano. Volta a reaparecer rapidamente no meio da história, e some. Depois, só volta na batalha final.

A impressão é de que o estúdio, o diretor e os produtores não entenderam que o público quer menos histórias mundanas e mais tempo para o grandão. E pior: a história dos personagens humanos não faz sentido dentro da trama. A personagem de Millie Bobby Brown (Stranger Things) é inútil ali. Ela não se desenvolve, só reclama o filme inteiro e, ao final, faz algo que a personagem de Farmiga (Invocação do Mal). Pra que colocar ela nesse filme, então? O ótimo Charles Dance (Game of Thrones), enquanto isso, não consegue emplacar como vilão. Há ameaças mais eminentes do que ele e a sua trupe.

O visual do filme, que poderia elevar a qualidade da trama, como foi em Kong, não funciona também. A fotografia de Lawrence Sher (de Se Beber, Não Case e do vindouro Coringa, o que preocupa) é demasiada escura, talvez para esconder defeitos de computação. A câmera treme demais, até mesmo em cenas que deveriam deixam os monstros brilharem. Algumas vezes, chega a ser difícil acompanhar o que Dougherty está querendo fazer na tela, tamanha a bagunça. Por fim, há enquadramentos estranhos -- e até engraçados -- de Godzilla. Focam no rosto e nos braços. Querem humanizá-lo.

Isso sem falar do estilo Michael Bay que é adotado. Explosões pra todo lado, destruição da humanidade, caos sem precedentes. Estava só esperando um Transformer aparecer.

O que funciona aqui é a criação visual dos monstros, ainda que atrapalhada pelos (d)efeitos visuais. King Ghidorah está ameaçador e, em alguns momentos, deixa Godzilla no chinelo. O monstro gigante mais amado do mundo, enquanto isso, continua benevolente e chega a permitir um carinho. No entanto, quando o modo batalha é acionado, ele dá medo e causa empolgação. Pena, porém, que a belíssima Mothra seja subutilizada. Ela possui muito mais potencial do que foi demonstrado aqui. Pena.

Dessa forma, Godzilla II é o filme mais fraco dessa trilogia informal sobre os titãs originais. O primeiro, dirigido pelo ótimo Gareth Edwards (Rogue One), ganha pontos pela criação de clima, enquanto Kong vai longe por conta do excelente elenco e, principalmente, por conta do visual ousado para um blockbuster. Este novo filme, que chega aos cinemas na quinta, 30, não acerta em nenhum dos dois pontos. Fica abaixo e causa preocupação pelo futuro da franquia, que quer juntar o lagarto e o macaco. O jeito é ficar de olho e torcer para que a diversão volte a tomar seu lugar da megalomania.