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  • Foto do escritorMatheus Mans

Crítica: 'Grande Sertão' se arrisca na teatralidade, entre erros e acertos



Fui com os dois pés atrás assistir a Grande Sertão, filme que estreia nesta quinta-feira, 6, e que adapta uma (das?) obras máximas da literatura brasileira, de Guimarães Rosa. Como colocar a história de Riobaldo na tela? Na missão, dois grandes do nosso cinema: Guel Arraes (de Auto da Compadecida) e Jorge Furtado -- a meu ver, melhor cineasta brasileiro vivo e em atividade hoje.


O fato é que Grande Sertão surpreende, pelo bom e pelo mau. Comecemos pelo bom: o filme não se propõe a ser uma adaptação direta e reta. Para isso, já temos uma versão de 1965. Aqui, Guel e Jorge recriam o cenário. O sertão deixa de ser aquele espaço entre Minas e Bahia para ser, em último caso, o sertão dentro de nós. O cenário se transporta para uma favela. Futuro.


Riobaldo (Caio Blat) é um professor de escola que continua com os mesmos dilemas: tenso com a violência ao redor, apaixonado por Diadorim (Luisa Arraes). Muda, porém, os personagens que vivem no confronto: Joca Ramiro (Rodrigo Lombardi) é o chefe do tráfico de drogas (ou da seita?) do morro; Zé Bebelo (Luis Miranda) é um delegado aspirante a político; Hermógenes (Eduardo Sterblitch, a melhor coisa do film) é um traficante endemoniado; mata e não morre.


Furtado e Arraes criam uma ópera teatral potente. O texto de Guimarães Rosa não apenas é transportado no tempo, mas no espaço. Entendemos o que ele diz no hoje -- e no amanhã. Esse é o principal acerto de Grande Sertão: tornar a obra do autor mais perene, mais viva, mais identificável. Pode parecer bobeira, mas é uma forma de introduzir a literatura de Rosa para aqueles que vivem no morro, por exemplo, e que podem entender sua realidade nessa escrita.


Tem aqueles que reclamam da mudança de tom, de cenário, de espaço. Também não gosto: acho de mau gosto tirar a história do sertão e levar, de novo, para um eixo Rio-São Paulo. Daqui a pouco vão colocar Auto da Compadecida 3 se passando com os personagens migrando para a capital paulista: parece que todas histórias precisam se passar no sudeste. Não é assim.



Isso tira um pouco da boa vontade com o filme, confesso. Obviamente, livro é livro e filme é filme. Mas não dá para ignorar essas conversas entre diferentes obras -- há décadas falamos sobre como Stanley Kubrick mexeu ativamente no livro O Iluminado, de Stephen King, chegando a transformar gelo em fogo, quente em frio. Mudar, ao adaptar, também é dizer alguma coisa.


A teatralidade, outro ponto discutido, é algo que me agrada: gosto de como o filme finca o pé nas palavras de Guimarães Rosa, mesmo que remexidas, trazendo aquela sonoridade que só conhecemos quando nos embrenhamos na leitura. É bonito (e difícil) conservar algo assim.


O elenco, outro ponto essencial em uma adaptação desse naipe, está entre erros e acertos. Caio Blat está bem, apesar do exagero do sotaque -- seu melhor trabalho em anos. Luís Miranda e Sterblitch são as grandes surpresas: os dois, vindos da comédia, sabem como brincar com o tom de seus personagens vilanescos, um mais e outro menos, incrementando a narrativa. De verdade? Não tinha nenhum outro ator para fazer Hermógenes: Edu tirou de letra. Impecável.


Outros atores, enquanto isso, derrapam. Luísa Arraes não vinga como Diadorim -- fora que toda a discussão LGBTQIA+ é ultrapassada, fraca, boba. Fica aquele gosto de nepotismo no ar (afinal, a atriz é filha do diretor, Guel). Lombardi nem fede, nem cheira: está apenas razoável em cena.


O fato é que, apesar de ter erros e acertos, Grande Sertão nos faz pensar. Nos faz sentir. Nos faz refletir sobre o que há ao nosso redor -- na vizinhança, na rua, no bairro, no País. O filme pode ter lá suas deturpações, assim como alguns deslizes, mas ainda é um produto audiovisual que é ousado, criativo e que não se contentou com o mesmo. Vale assistir, pensar e refletir.

 

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