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  • Matheus Mans

Crítica: ‘Invisível’ faz retrato brutal sobre gravidez na adolescência


Gravidez na adolescência não é um tema inédito para o cinema. Apenas para lembrar de alguns casos mais recentes, é possível citar filmes como Juno, Preciosa -- Uma História de Esperança e o pouco conhecido Slam. No entanto, arrisco dizer que o assunto nunca foi tratado de forma tão natural e brutal como no longa Invisível, novo trabalho do talentoso cineasta argentino Pablo Giorgelli (Las Acácias) e que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 9.

No centro da história, encontramos Ely, uma jovem de 17 anos que tem uma vida monótona e sem grandes momentos. Afinal, ela se divide entre as aulas sem propósito da escola, seu trabalho num petshop e os momentos em casa com a mãe depressiva. O único ponto que foge da rotina são as escapadas sexuais com seu chefe, um homem bem mais velho e que trata a adolescente de um jeito bem distante -- enquanto ela começa a encarar os encontros de maneira mecânica.

A partir daí, Giorgelli cria um clima brutal para o filme. Como o próprio título já diz, vemos a protagonista como uma pessoa invisível na sociedade. Por onde ela passa, ninguém presta atenção em sua figura. Não é à toa que o filme é extremamente econômico em diálogos, já que a maioria das cenas é sustentada apenas pela troca de olhares entre Ely e as pessoas que rodeiam sua vida. Assim como em Las Acácias, todo significado do filme fica carregado nos vazios silenciosos.

Apesar de não ter o carisma dos atores do filme anterior de Giorgelli, a atriz Mora Arenillas consegue carregar a força de sua personagem e entrega uma atuação contida, cheia de silêncios e sem exageros. Quando o filme ganha novos tons e parte para uma história de tensão pré-aborto, esses silêncios e a troca de olhares ganham mais importância dentro da narrativa, fazendo com que o cinema do diretor argentino tenha capacidade de ter o mesmo impacto de Las Acácias.

No entanto, é importante ressaltar que esta segunda fase do filme é bem mais morna do que a inicial. A apatia emocional dos personagens acaba transbordando alguns limites e o filme, de maneira quase intencional, fica vagaroso demais -- mesmo tendo apenas noventa minutos de duração. Faltou um cuidado de Giorgelli em criar algumas situações dentro da própria história para alavancar e dar algum ritmo à narrativa, que pode fazer espectadores desistirem da trama.

Há, também, um certo cuidado no posicionamento de temas. Claramente, Giorgelli é uma pessoa à favor do aborto -- só ver cenas da personagem buscando ajuda médica, sem obter sucesso. No entanto, é uma coisa tão velada e sem posicionamento que acaba ficando um pouco cansativa. A opinião do realizador nos diálogos, nos gestos e nos detalhes, mas sem nunca colocar a mão na massa para mostrar seu posicionamento de maneira literal. Isso, às vezes, é positiva para o filme.

Ainda assim, Invisível recupera o fôlego no final com uma sequência de acontecimentos que indicam uma transformação inesperada na tela. E o final, direto ao ponto, causa uma boa e interessante reação na plateia, que fica se questionando sobre os próximos acontecimentos daquela história. E, isso, claramente, é a intenção de Giorgelli, que quer provocar e fazer a audiência se questionar sobre o tema em questão. Sem dúvidas, ele conseguiu fazer isso muito bem novamente.

ÓTIMO