• Matheus Mans

Crítica: 'Miss Americana' é documentário para fãs de Taylor Swift -- e só


Está na moda fazer documentários sobre grandes astros da música pop internacional. Tem da Shakira, da Beyoncé e, em breve, deve chegar por aí o de Shawn Mendez. Mas, antes disso, chegou a vez de Taylor Swift conquistar mais um espaço na Netflix para chamar de seu. Agora, com o documentário Miss Americana, que estreou em Sundance e, finalmente, chega ao público.


Dirigido por Lana Wilson (do bom The Departure), o longa-metragem se vende como algo que vai além da Taylor Swift que conhecemos -- e que a mídia ajudou a construir. A ideia, aparentemente, é mostrar a cantora de sucesso internacional em momentos de bastidores, com família e amigos. Além de ter espaço para comentar algumas polêmicas, como a de Kanye West.


Dessa forma, mais do que ser um documentário sobre bastidores -- como foi Homecoming, da Beyoncé -- Miss Americana mostra que quer ir além. Quer desconstruir a imagem de Taylor.


E isso é uma tarefa ingrata que caiu sobre os ombros de Wilson. Por mais diferente que Taylor Swift seja em seu dia a dia, a cantora de Look What You Made me Do e Blank Space possui uma imagem já muito marcada e presente. Você não precisa ser fã dela para saber sobre algumas das particularidades da artista, como as músicas sobre fins de relacionamento e afins.


Por isso, pro mais que a diretora se esforce, essa desconstrução nunca acontece. O que é feito no documentário, na verdade, é um passeio bem rápido -- e, por vezes, incompleto -- sobre essa vida alucinada de uma estrela pop internacional. Problemas com o corpo, polêmicas, relacionamentos, pressão. Tudo está ali, aparentemente claro, preto no branco. Mas há um filtro.


Há uma sensação, ao longo de todo o documentário, que a ideia aqui é a desconstrução. Mas o resultado, no final das contas, é uma espécie de autopromoção embutida. Propaganda, para falar a verdade. Wilson, ao invés de fazer um documentário profundo e cheio de camadas, aposta na superfície de ideias para falar apenas com fãs. E disso tenta revelar a nova Taylor.


E não há nada de novo aqui. A Taylor revelada é uma Taylor ainda cerca de assessores, da mãe, de aprovações. Miss Americana iria além se tivesse mais verdade em sua realização, que termina em momentos ensaiados e outros artificiais -- o jantar com a amiga é de um desconforto latente. Fica a sensação de que é um passeio superficial da Taylor que já existe.


Não se revelou nada de novo aqui. Miss Americana é uma fórmula batida, óbvia e sem criatividade. Não há evolução na personagem de Taylor, vitimizada o tempo todo -- é incrível como ela nunca fez alguma besteira sob a ótica de Lana Wilson. Falta, assim, esse passo a mais. O sofrimento dela em alguns momentos, por mais que seja verdadeiro, não rompe a camada.


Miss Americana, assim, é um documentário para fãs. E ponto final. Estes, justamente, irão se deliciar com cenas de bastidores, se emocionar ao ver grandes sucessos sendo compostos, e se revoltar com polêmicas e injustiças. E, para eles, isso basta. Agora, o público convencional, que sabe pouco sobre ela, vai querer algo mais. Uma jornada da personagem Taylor. E não há isso.


Talvez, nem exista, de fato, uma Taylor fora dos holofotes. Quem é ela? Faltou essa pergunta em Miss Americana, documentário que se contentou com pouco. E achou que tinha muito.

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