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  • Matheus Mans

Crítica: 'Não Há Mal Algum' é filme potente sobre morte e autoritarismo


Que filme mais bonito e impactante é esse Não Há Mal Algum, que recebeu o prêmio máximo no Festival de Berlim e agora trilha uma jornada de elogios na 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Na trama, dirigida pelo iraniano Mohammad Rasoulof, acompanhamos quatro histórias totalmente distintas sobre o mesmo tema: pena de morte adotada pelo governo do Irã.


A partir daí, são vários os olhares e ângulos colocados em perspectiva pelo longa-metragem na telona. Pra começar, um homem vive sua vida normal e cotidiana até nos ser revelada sua profissão -- é a história de abertura e a mais rápida, direta e potente das quatro. Depois, vemos a história eletrizante de um soldado que não quer ser responsável por aplicar a pena de morte.


Depois, entramos num terreno mais das ideias e das sensações. Primeiramente, um homem que chega na casa da pretendente e, lá, é atormentado pelo seu passado envolvido com a aplicação das penas de mortes. Há, também, o caso mais claro de perseguição política. Depois, por fim, há o curta mais diferente e ousado de Não Há Mal Algum, indo por um caminho muito emocional.

Apesar de vermos quatro histórias distintas e sem conexão claras entre elas, como Relatos Selvagens o fez, não há falta de coesão nesse filme de Rasoulof. Afinal, por mais que sejam personagens em situações completamente distintas, eles conversam a partir de suas dores, medos, angústias e pesadelos, sempre guardados na consciência moral e em suas memórias.


Além disso, engana-se quem pensa que Não Há Mal Algum é um filme apenas sobre pena de morte. O diretor, na verdade, se vale desse tema para ir além e, assim, construir uma narrativa que faça uma crítica contundente ao sistema autoritário do Irã -- a inserção da música Bella Ciao, hino contra o fascismo durante a Primeira Guerra Mundial, não é gratuita na produção.


Não Há Mal Algum é um filme bonito, bem produzido e poderoso, mas também serve como um importante filme-denúncia. Encontra meio de acusar por meio da arte e pelas histórias naturais e muito bem contadas que o cinema árabe vem proporcionando -- arrisco dizer que este longa é muito melhor do que O Insulto e O Apartamento, filmes premiados e vindos do Oriente Médio.


A segunda história tem uma leve queda na qualidade geral do filme, assim como o terceiro se prolonga um pouco demais. No entanto, ainda assim, Não Há Mal Algum ainda é uma das produções mais potentes da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e um daqueles grandes filmes de 2020. É atual, é forte, é potente. E vai muito além das particularidades do Irã.

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