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  • Foto do escritorMatheus Mans

Crítica: 'Não se Preocupe, Querida' é boa distopia atrapalhada pelos bastidores


É curioso como os bastidores atribulados de Não se Preocupe, Querida se tornaram, aos poucos, mais interessantes e comentados do que o próprio filme em si. Curioso, mas também triste. Afinal, o longa-metragem que chega aos cinemas nesta quinta-feira, 22, é uma produção deveras competente, que atinge com graça a qualidade de uma distopia feminista e moderna.


Dirigido por Olivia Wilde (Fora de Série), o longa-metragem conta a história de uma estranha comunidade dos anos 1950, em que uma mulher (Florence Pugh, absolutamente genial) começa a questionar tudo que existe ao seu redor e a realidade em que vive, assim como o marido (Harry Styles). É um filme com forte comentário social, sobre opressão e papel da mulher.


O ponto mais fraco do longa-metragem, infelizmente, é a ideia. O roteiro, assinado pelo trio Katie Silberman, Carey Van Dyke e Shane Van Dyke, parte da essência do Mito da Caverna de Platão, em que as pessoas vivem em um mundo de sombras até que questionam o que há por trás disso. Algo já retratado aos montes por aí, desde 1984, Admirável Mundo Novo ou WandaVision.


Ou seja: Olivia Wilde poderia fazer o que fosse como cineasta, mas o filme continuaria sendo uma produção que nasce datada. Não tem como surpreender, não tem como causar uma comoção real no público, não tem como ir além. É uma estrutura de história muito presa à base. Enfim: já sabemos, desde o comecinho, como a coisa vai avançar, se desenvolver e terminar.

Além disso, precisamos falar de Harry Styles. Ele é um grande cantor, um bom compositor. Sem dúvidas, um showman, como poucos hoje em dia. Mas, como ator, está parecendo uma tragédia. Ele simplesmente não segura o papel de marido confortável dentro dessa distopia e, quando as reviravoltas se abatem, ele fica perdido dentro da história. Não consegue levar emoção ao papel.


No entanto, há alguns elementos interessantes aqui que merecem a atenção e justificam a boa nota abaixo. Primeiro e acima de todo o resto: Florence Pugh. A atriz é uma sensação, um acontecimento. Mesmo em momentos que o roteiro não a favorece, ela consegue achar um meio de brilhar. É o que digo desde Lady Macbeth: ela tem uma poder interpretativo raro e brilhante.


Além disso, ainda que boa parte do filme patine por conta dessa base óbvia e batida, os últimos 30 minutos são empolgantes. Afinal, é ali que Olivia Wilde encontra espaço para deixar o público tenso. Ainda que todos saibam como a coisa se desenrola, a cineasta e o roteiro podem ir para qualquer lado no último segundo. Pode ser vida ou morte, alegria ou tristeza; celebração ou luto.


E essa última meia hora funciona maravilhosamente bem. Com Florence Pugh completamente entregue, Não se Preocupe, Querida ganha força. Ainda que a mensagem possa parecer um tanto quanto clichê e batida, também tem seus méritos. Oras, vivemos um momento em que as tradições sociais das mulheres são questionados -- Desterro, A Mulher Rei e O Livro dos Prazeres, que também estreiam hoje, falam todos eles sobre essa mesma temática.


Bater nessa tecla, dizendo que o filme tem uma mensagem piegas, é desculpinha de quem não sabe como chutar cachorro morto. Não se Preocupe, Querida tem seus problemas, sim, mas ainda é um filme quente, com uma protagonista que funciona e momentos que te deixam preso na tela. É uma pena que os bastidores do filme, no fim das contas, tenham eclipsado a história.

 

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