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  • Matheus Mans

Crítica: 'Noite de Lobos', da Netflix, se afoga nas próprias metáforas


Muita expectativa envolvia o lançamento de Noite de Lobos, nova longa-metragem de Jeremy Saulnier. Afinal, o cineasta norte-americano já tinha apresentado bons resultados em Ruína Azul quando virou sucesso de crítica e público com o angustiante Sala Verde. Era esperado, então, que o longa-metragem feito para ser exibido na Netflix elevasse ainda mais a qualidade e mantivesse os bons recursos de narrativa e filmagem que o consagraram até então. No entanto, o resultado não é esse.

Noite de Lobos começa contando a história de Medora Slone (Riley Keough), uma mãe com sede de vingança após a morte de seu filho por lobos que circundam a gélida região de sua casa. Para ajudá-la na tarefa de se satisfazer contra os carrascos de seu pequeno, ela manda uma carta para o escritor Russell Core (Jeffrey Wright). A ideia é finalizar a vingança enquanto o pai do menino está em uma guerra no Oriente Médio.

A partir daí, o roteiro de Macon Blair (Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo) é decepção em cima de decepção. Ao invés de se valer do clima gélido para criar um bom suspense que intrigue a audiência, como fez o recente Terra Selvagem, a narrativa logo parte para uma batida metáfora sobre a violência social e como isso afeta uma família. O thriller, que poderia servir como condutor desta história a ser contada, é jogado fora nos minutos iniciais, quando uma revelação de peso é feita antes da primeira metade.

O roteiro, então, passa a dar voltas e mais voltas numa história, já enfraquecida por sua quebra de suspense, e que tenta se sustentar em metáforas clichês, batidas e, em alguns casos, vergonhosas. Nada da tensão de Sala Verde, nada da história gélida e cheia de significados de Terra Selvagem, nada do instinto de sobrevivência num ambiente hostil como Ao Cair da Noite. São só tentativas frustradas de se contar uma história qualquer com metáforas sociais. Funcionaria se tivesse uma boa costura. Coisa que não tem.

Não dá pra dizer, porém, que a direção de Jeremy Saulnier não está charmosa ou introspectiva. Assim como em seus outros trabalhos, há um forte niilismo em cena que ajuda a elevar a qualidade do filme e a amplificar seus objetivos. A câmera do cineasta não faz enquadramentos óbvios e continua a filmar mesmo quando o desconforto grita na tela. Pena que o roteiro não ajuda o Saulnier, que se mostra tão competente quanto em seus outros longas. Definitivamente, não é um filme pra cima, solar. É, assim como nos outros, um atestado de pessimismo enraizado em seu modo de rodar sequências.

O elenco também ajuda a elevar um pouco o marasmo narrativo que é o filme. Jeffrey Wright (Westworld) acaba assumindo as pontas como protagonista e faz o que pode. O problema é que seu personagem parece estar sempre ensaiando grandes momentos, mas sem nunca chegar em um deles de fato. Alexander Skarsgård (Mudo) está bem, mas nada marcante. Só Riley Keough (Ao Cair da Noite) que consegue, de fato, tirar leite de pedra com uma atuação na medida e que, de certa forma, extrapola a trama em si.

Noite de Lobos é um filme angustiante, niilista e bem filmado, que traz bons elementos para a tela e que incomoda. No entanto, seus mais de 120 minutos não conseguem sustentar uma mescla de metáfora social com thriller gélido, criando uma trama sem personalidade, vida ou interesse. No final, quem vai se interessar pelo filme é quem espera por uma conclusão apoteótica, reveladora e interessante. E, infelizmente, deve se decepcionar no final.