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  • Matheus Mans

Crítica: 'Noites de Alface' perde força com história de objetivo pouco definido


O longa-metragem Noites de Alface tem uma trama que promete: o idoso Otto (Everaldo Pontes) que precisa viver e enfrentar sua rotina após a morte de Ada (Marieta Severo), sua esposa e companheiro há décadas. Eles compartilhavam suas rotinas, suas observações. Tudo. Assim, depois da viuvez, ele começa a interagir com a vizinhança e a desconfiar de um crime cometido.


A partir daí, acompanhamos a rotina de Otto em dois momentos. De um lado, a vida solitária desse idoso rabugento, precisando tocar sua vida sem a companheira ao seu lado. São os momentos mais ricos da narrativa, dirigida e roteirizada por Zeca Ferreira (de Ensaio sobre o Silêncio) e adaptada de um livro elogiadíssimo por crítica e público de Vanessa Barbara.


Por outro lado, há essa investigação de Otto -- que passa por noites de insônia, regadas a um misterioso chá de alface para tentar vencer a falta de sono. Ele quer entender o que houve com um carteiro desaparecido. Ao mesmo tempo, sua aproximação com os vizinhos acaba gerando uma série de teorias, que vão aparecendo na tela conforme Otto vai confabulando teorias.

Ferreira, apostando na sagacidade do espectador, mistura a vida real de Otto e Ada com a imaginação do idoso, já solitário, sobre o que aconteceu com o carteiro. É uma mistura ousada, um tanto quanto inusitada, e que rende uma mistura que não funciona realmente muito bem: a trama do casal, e a solidão de Otto em casa, é muito superior ao que é mostrado na investigação.


Com isso, fica uma sensação de falta de foco, de objetivo. Afinal, a história dos vizinhos não impacta realmente a trama. Perde-se tempo com muita coisa que não acrescenta na trama principal. Talvez faça sentido no livro de Vanessa Barbara, já que há mais espaço para desenvolver ideias, personagens, subtramas. Aqui, neste filme de 80 minutos, falta espaço.


Ainda assim, porém, Noites de Alface tem seu charme, sua delicadeza, sua sensibilidade. Otto é um personagem interessante, de profundidade, enquanto Ada rapidamente se torna uma personagem cativante -- ainda mais com a atuação brilhante, como sempre, de Severo. Poderia ser melhor e mais profundo, mas vale pela criatividade da narrativa e a originalidade da direção.

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