• Matheus Mans

Crítica: 'Nu', da Netflix, é filme perdido no tempo


Até agora, a Netflix tinha apostado suas cartas de histórias originais de comédia apenas em filmes com o astro Adam Sandler. Na última semana, porém, as coisas mudaram de figura com a chegada do filme Nu, uma comédia com o inesgotável Marlon Wayans e que parece ter vindo direto de 2005 com uma trama previsível, humor perdido no tempo e situações sem vínculo com a realidade.

A trama é uma mistura de Feitiço do Tempo com qualquer outro filme recente de Wayans, como os péssimos Cinquenta Tons de Preto e a franquia Inatividade Paranormal. A história, porém, não trabalha com o tom de paródia de seus filmes recentes. Desta vez, o foco das atenções é Rob Anderson, um professor substituto de literatura prestes a se casar, mas que vive num paradoxo temporal.

Mais especificamente, Rob fica preso num momento curioso de sua vida: preso pelado em um elevador quebrado e já atrasado para o casamento. Para reverter isso, ele precisa achar um meio de chegar à cerimônia com tudo certo -- roupa, votos, aparência e, claro, do jeito mais rápido possível. O filme, então, é uma sucessão de tentativas de Rob partindo deste momento até a chegada ao casamento.

E aí está o primeiro erro de Nu. Ao contrário de filmes que usam a mesma temática, o foco fica o tempo inteiro nas repetições. Uma coisa ou outra tem graça, mas a trama central fica cansativa demais e não evolui. É um ciclo sem fim: Rob acorda pelado, passa vergonha, vai pro casamento e alguma coisa dá errado. O disco, então, volta novamente: Rob acorda, tem momentos vergonhosos e falha novamente.

Feitiço do Tempo, por exemplo, usa deste expediente, mas de maneira mais equilibrada. Os dias são repetidos em sua totalidade apenas uma ou outra vez. Depois, vemos apenas uns lances de coisas que Bill Murray fez no meio-tempo. E ainda: o motivo de tudo aquilo estar acontecendo é revelado muito depois. Em Nu, enquanto isso, o motivo é esparso e pouco explicado. Nada faz sentido ali.

Além disso, Marlon Wayans não é Bill Murray. Ele até que tenta, mas sua expressão facial não sai de um padrão visto em todos os seus filmes. A graça é pouca, apenas em algumas situações. O humor é bobinho e às vezes esbarra no besteirol -- nada parecido com os seus últimos filmes já mencionados aqui, que são apenas para maiores. É um filme engraçadinho e quase Sessão da Tarde. Só isso.

Nu, no final, não é o pior filme de Marlon Wayans, mas está longe de As Branquelas ou, menos ainda, Feitiço do Tempo. O roteiro não desenvolve, a direção é praticamente inexistente -- não é à toa que nem citamos o diretor Michael Tiddes neste texto. Com humor velho e sem presença de espírito, é uma história para passar o tempo e se divertir na Netflix. E só.

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