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  • Matheus Mans

Crítica: 'O Charlatão' é dramalhão intenso, mas perdido em vários assuntos


A cineasta Agnieszka Holland (Rastros, Mr. Jones) é um dos nomes mais interessantes do cinema checo, extremamente prolífica e de uma criatividade ímpar. Nos últimos anos, porém, seu trabalho tem se tornado mais instável, com filmes para televisão e algumas história muito mais obscuras. O Charlatão é um filme que escapa disso, mas ainda recai em questões básicas.


Mas, como sempre, vamos por partes. O longa-metragem conta a história de Jan Mikolásek (Ivan Trojan), um herbalista na República Checa que analisava a urina de seus pacientes e receitava plantas para curá-los. No entanto, ele acabou se tornando alvo de uma perseguição do governo e acusado como charlatão, mesmo tendo vários casos de pessoas curadas na cidade que morava.


Holland, a partir de uma narrativa chapa branca, vai contando a história desse homem e o tratando como uma espécie de semideus -- ele descobre o dom de curar as pessoas com ervas de maneira quase mágica, cura a necrose da irmã, tem uma espécie de feiticeira como guia e coisas do tipo. Ela eleva a figura de Mikolásek para um outro patamar, como se fosse de além.

Assim, o filme logo de cara tem dois caminhos. Por um lado, é impossível tratar O Charlatão como um longa-metragem provocativo, ousado, fora da caixinha. A cineasta compra a história do herbalista -- mesmo com o tal título trazendo essa outra ideia -- e poucas vezes provoca o espectador a pensar diferente. Sem dúvidas, ela poderia ter ido por esse lado mais arisco.


Além disso, há um outro fator que pesa: O Charlatão, lá no início do segundo ato, começa a apresentar infindáveis flashbacks que quebram absolutamente o ritmo da história. Ainda que alguns desses retornos narrativos funcionem e façam sentido na história, eles cansam. A trama fica fragmentada demais. E, no final das contas, o exercício de curandeirismo fica de escanteio.


No entanto, ainda assim, não podemos dizer que O Charlatão é um filme ruim. Ele é intenso, traz algumas ideias boas, Holland filma bem e os atores estão inspirados. Quem quiser encontrar um novelão extremo, que mistura prisão, tortura, reencontro da sexualidade e outras coisas do tipo, pode se emocionar. Mas preciso estar totalmente entregue à proposta, já que não há escapes.

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